terça-feira, 18 de outubro de 2011

Feliz dia de morte





Este é um cartão de feliz dia de morte. Escrevo e concebo para mim mesma, mas talvez sirva para você, que deve morrer vez ou outra, por mais que não perceba. Quando eu nasci, morri. Lá se foi a minha vida uterina tão confortável, dependente, satisfeita e úmida. Mas morrer não é de todo mal. Ao negar minha existência para certos caminhos, ganho a oportunidade de ser para outros. Ademais, sinto-me em enorme asfixia ao imaginar a completude.



Feliz foi o dia da minha morte diante daquela pedra grande que esmagava o meu estômago. Morri eu, morreu a pedra e o órgão ficou livre para digerir outros alimentos. Estava mesmo faminto. Agora brindo o aniversário da morte da voz empedrada na garganta. A morte do meu crachá de funcionária infeliz do ano. A morte do glamour e da vaidade que camuflavam a dor de estar andando com os pés trocados.



Feliz dia da morte da minha ilusão inocente que deu lugar a outra ainda mais inocente, talvez. Feliz dia da minha morte. Que não teve flores, nem reza, talvez uma lágrima ou outra vinda do eu. Feliz dia de uma morte sedenta, voraz, animalesca. Morte esta que raspa a pele já sem vida. Morte que come um pedaço enquanto milagrosamente outro nasce, deformado, vivo, incompleto. Feliz dia da minha morte, parabéns para mim, nessa data tão querida. Algumas felicidades e muitos anos de vida-morte-vida-morte.



Depois de um sopro, a luz apaga?

Imagem: O cartão de Feliz dia de Morte traz pintura de Chagall. Talvez você não entenda, mas eu também não posso explicar.




quarta-feira, 14 de julho de 2010

Aos anjos


Dorme. Não quero chorar na sua frente. Vou fazer silêncio, prometo. Deixei a radiola cantar deformando a música com aquele chato problema de rotação. Quem não tem seus problemas. O cheiro do arroz queimado e a certeza de que às vezes é preciso estragar algo. Deixar apodrecer, desmanchar, deixar sujo. Não suporto a perfeição diante de um eu tão defeituoso.


Eram oito semanas. Eu sabia o que minha irmã estava passando e só nós duas sabíamos. Não é coisa que se explique. “É tão comum, passa.” O problema é até passar. “Mas isso não te impede de ser mãe”. O problema é até ser. Perder filho não é algo que se explique. A gente diz, a pessoa escuta. Nada mais pode acontecer.


O cigarro descia enjoado e por vezes ensaiei vomitar. Não tinha vento para levar minha dor, nem para um passeio rápido. Fiquei ali olhando a vida naquela janela. Eu, meu sofrimento e o sofrimento da Janaina. Vi na casa em frente uma família tentando jantar, os mais jovens seguravam um senhor que já não tinha muito equilíbrio nos movimentos. Era uma imagem fragmentada pela grade posta na janela. Pude ver as partes.


Pensei em ligar para ela e dizer que decidi ter dois filhos. Estava encasquetando com a ideia de ter apenas um por questões minhas de nunca acumular riqueza. Não teremos como sustentar dois. Mas chorando naquela janela, eu decidi. Não posso nunca privar meu filho de ter um irmão. Eu seria tão pouco sem Janaina.


Rezei para que a morte não fosse o fim. Eu, que nem rezar sei. Pedi para a vó, com quem não pude ter, que cuidasse deles e desejei com força que eu pudesse cuidar de minha irmã.


Sentir a dor do outro é entrega de amor.


Enxuga as lágrimas que o marido já está acordando e ele não precisa sofrer.

[Vou ligar para a Jana fingindo não saber que ela sofre. Talvez a gente mande a conversa andar por bobagens e faça um carinho na dor.]
Imagem: Edvard Munch e toda minha dor e amor ao expressionismo alemão.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Eu lírica


Foi assim que subi na cama, estiquei meu corpo e, com toda minha instabilidade nata, alcancei a pasta de recordações. Era o remédio que precisava. Toda vez que alguém se atrevia a dizer exatamente do que eu era feita, banhava meu rosto e corria para o quarto ao encontro de minhas lembranças. Cartas, bilhetes, fotos empoeiradas. Um cheiro, um recorte, um adesivo, um guardanapo qualquer com escritos excessivamente sentimentais. Precisava daquilo para respirar. Procurava o passado em busca do que de fato era, pois ali nas lembranças estava a prova das tantas vezes que já tinham tentando me fazer outra. Tem sempre alguém apontando um dedo e dizendo o que você é. Consigo ouvir o grito ecoando “eu te conheço minha filha, sou sua mãe”.
Pois sou um pouco do que dizem e muito também do que deixaram de dizer. Sou silêncio, sombra, o que sinto e não só o que sentem de mim. Por mim. “Não me reduzam a isso”, disse baixinho chorando enquanto abraçava os papéis velhos como se fossem um amigo. As interpretações eram tecidas a todo instante e isso não me machucava, doía mesmo era quando um das versões pretendia ser soberana. Parecia prisão. Embriagada em tristeza falei alto para o mundo não ouvir. "Ainda quero ser eu". Ao que de pronto um chefe me respondeu. “Então vá ser artista”.


[Com aqueles ouvidos de editor, ele selecionava o que entraria ou não no texto do pensamento dele. E assim, cortando as falas e mudando os contextos ia formando na mente a pessoa que eu seria. Quero te ver assim e, portanto, assim serás. O criador, não deixa de ser.]
Imagem: Adriana Varejão. Porque deixou azulejos em carne viva.

domingo, 28 de março de 2010

Seu Zé


Escrevi muita coisa sobre o Zé e depois apaguei tudo. Só quero dizer que eu estava muito triste naquele dia, tomada pelo fim do sentido de todas as coisas que vez ou outra me pega de jeito. Tudo se esvazia e não quero mais nada. São dias em que me faço anoitecer. Foi aí que eu, meu cigarro e meu nada esbarramos nele. O Seu Zé anda olhando para baixo e tem sorriso generoso de quem acha a vida simples. Senta na frente da TV e come com gosto o feijão, o arroz e a farinha requentada do outro dia. Come e oferece, enquanto se diverte assistindo pica-pau. Ah, e ele percebe tristeza de bicho (“A galinha tava se sentindo só, por isso parou de comer”). Mal sabe ele como me ensinou coisa bonita em dia chuvoso. "Tchau Seu Zé, até amanhã". “Se Deus quiser”. E eu sempre penso que ele há de querer.


A imagem: Porque para mim o Seu Zé bem que podia ser de um quadro do Portinari.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Aos amigos


Ontem eu estava andando sem mãos e é tão estranho. Passei a tentar sentir sem ter em mãos. Fiquei parada nessa rua tentando para depois chorar sozinha porque o que senti foi pouco. Juntei uma mão na outra e lhe dei nomes diferentes para acreditar que, sim, eram pessoas dadas, mesmo que fossem pessoas eu. Mas não me convenci, pois não quero me bastar sozinha. Desejo precisar dos outros. É dependência demais não precisar de ninguém, por mais que pareça o contrário. Quero poder ligar e pedir “vem aqui” ou “deixa eu ir”.

Imagem: Café Terrace, Van Gogh. Minha mesa é aquela vazia.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Lavadeira


Tarde para encontrar um amor daqueles. Cedo para chorar demais. Nem bichos, nem plantas, mas uma imprescindível planilha de contas para o dinheiro durar. Naquela terceira gaveta do criado-mudo emprestado, que ficava no único quarto da casa, um pedaço de nuvem morava na caixa de madeira. Mostrava o que não era impossível. Aquela bola de ar passeava entre seus dedos e era a sua chance de sobreviver. Escapava de acordar e dormir.
Acorda, café, jornal, bom dia, trabalho, almoço, boa tarde, trabalho, janta, boa noite, sono. E então o pedaço de nuvem dizia: “Veja Joana, aquele passarinho tem uma mancha branca nas costas e prefere andar a voar”.
Imagem: Magritte, Deuso meu, que também gostava de nuvens.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Roseira


Faz tempo que a gente cultiva
a mais linda roseira que há,
mas eis que chega a roda viva
e carrega a Rosana pra lá



E ela lá sabia de onde vinha a pancada? Sentia a dor, isso sim, mas o resto era explicação demais. Heitor deixou a porta entreaberta e era possível ver metade. O corpo então se estica na cama, o pé tenta uma ponta, o braço empurra a parede e todo esforço é valido para que aquilo se feche. Chega de metade, rezou ela a noite, de joelhos, em frente ao nada.

O que não era dor era um bololô de coisas indecifráveis. Tinha aquela ânsia em duplo sentido, de vomitar os nós e de ansiar o novo. Não era tristeza, dessa vez, não era tristeza. Era dor. Na cabeça até parecia que tudo caminhava bem, resgate da fé, tentativas de estudo, esperanças de um trabalho novo, amor. Dessa vez não era na mente, era no estômago. Era aquela vontade de fechar algumas portas, abrir outras, mas, pelo menos por um tempo, dispensar as entreabertas. Heitor sabia disso.

Acende a vela. Apaga. Acende a vela. Apaga. Acende a vela. Apaga. Acende a vela. Apaga. Acende a vela e apaga, pelo amor de Deus, ela não pode derreter. Quem deve desmanchar são as mágoas e não os magoados.
Imagem: Nem sempre Roseira é rosa. Girassóis, de Van Gogh