
Este é um cartão de feliz dia de morte. Escrevo e concebo para mim mesma, mas talvez sirva para você, que deve morrer vez ou outra, por mais que não perceba. Quando eu nasci, morri. Lá se foi a minha vida uterina tão confortável, dependente, satisfeita e úmida. Mas morrer não é de todo mal. Ao negar minha existência para certos caminhos, ganho a oportunidade de ser para outros. Ademais, sinto-me em enorme asfixia ao imaginar a completude.
Feliz foi o dia da minha morte diante daquela pedra grande que esmagava o meu estômago. Morri eu, morreu a pedra e o órgão ficou livre para digerir outros alimentos. Estava mesmo faminto. Agora brindo o aniversário da morte da voz empedrada na garganta. A morte do meu crachá de funcionária infeliz do ano. A morte do glamour e da vaidade que camuflavam a dor de estar andando com os pés trocados.
Feliz dia da morte da minha ilusão inocente que deu lugar a outra ainda mais inocente, talvez. Feliz dia da minha morte. Que não teve flores, nem reza, talvez uma lágrima ou outra vinda do eu. Feliz dia de uma morte sedenta, voraz, animalesca. Morte esta que raspa a pele já sem vida. Morte que come um pedaço enquanto milagrosamente outro nasce, deformado, vivo, incompleto. Feliz dia da minha morte, parabéns para mim, nessa data tão querida. Algumas felicidades e muitos anos de vida-morte-vida-morte.
Depois de um sopro, a luz apaga?
Imagem: O cartão de Feliz dia de Morte traz pintura de Chagall. Talvez você não entenda, mas eu também não posso explicar.




