
Faz tempo que a gente cultiva
a mais linda roseira que há,
mas eis que chega a roda viva
e carrega a Rosana pra lá
E ela lá sabia de onde vinha a pancada? Sentia a dor, isso sim, mas o resto era explicação demais. Heitor deixou a porta entreaberta e era possível ver metade. O corpo então se estica na cama, o pé tenta uma ponta, o braço empurra a parede e todo esforço é valido para que aquilo se feche. Chega de metade, rezou ela a noite, de joelhos, em frente ao nada.
O que não era dor era um bololô de coisas indecifráveis. Tinha aquela ânsia em duplo sentido, de vomitar os nós e de ansiar o novo. Não era tristeza, dessa vez, não era tristeza. Era dor. Na cabeça até parecia que tudo caminhava bem, resgate da fé, tentativas de estudo, esperanças de um trabalho novo, amor. Dessa vez não era na mente, era no estômago. Era aquela vontade de fechar algumas portas, abrir outras, mas, pelo menos por um tempo, dispensar as entreabertas. Heitor sabia disso.
Acende a vela. Apaga. Acende a vela. Apaga. Acende a vela. Apaga. Acende a vela. Apaga. Acende a vela e apaga, pelo amor de Deus, ela não pode derreter. Quem deve desmanchar são as mágoas e não os magoados.
Imagem: Nem sempre Roseira é rosa. Girassóis, de Van Gogh