terça-feira, 28 de agosto de 2007

Mariana


Mariana percebeu que o silêncio permite a existência de todas as vozes. “Tem vezes que tudo cansa, até o descanso”, disse ela semana passada a uma amiga, enquanto pegava um café no corredor do escritório. Até então, tinha se achado esperta nessa vida. Conseguiu o que queria, de uma forma ou de outra. Terminou administração de empresas, aprendeu inglês de mercado, estagiou durante a faculdade, teve o primeiro emprego na hora certa, fazia amor às sextas-feiras e comia pizza aos domingos. Escutava FM quando ia ao trabalho e sempre recorria a Veja para ler as noticias da semana. Se existe um livro grande, de capa dura, cujo título pode ser algo como “O destino de Nana”, nele apenas linhas retas e muito bem traçadas. Começo, meio e fim, necessariamente nessa ordem. Roupas no armário, ordens na cabeça, futuro na planilha, livros na estante e idéias nos desajustados.



Ela percebia tudo, o quanto precisava se dedicar para uma promoção, que a descrição ajudava nos negócios, quem tinha problema emocional ali e o quanto isso poderia prejudicar, que o adoçante deixava ela tomar mais cafés por dia, que filhos podiam estremecer um casamento, que o casamento não era como namoro de jovem e até que namoro de jovem não era como de fato foram os dela – mesmo quando ainda jovem. Vai ver são amores de filme e ela, esperta por demais, também percebeu que o filme recorre à mentira quando quer trazer final feliz. De verdade, todos os personagens sofrem e, por isso, optou por não ser um. Pé no chão, passo firme, rigor e complacência com horas marcadas em agenda.



Mas foi naquela quinta, com sua carinha de quem dorme oito horas por noite, que ela se deu conta de que o silêncio dá oportunidade a todas as vozes. E o que ouvia ela então? Vozes de buzina, vozes de crianças lá longe, vozes de carros, vozes de coisas que caem na rua. Não escutava nenhuma voz que fosse sua, nem sinal de qualquer uma das muitas vozes que, de repente, ela desejou ter. Lembrou que nos filmes aqueles personagens tristes são ocupados por muitas vozes e ela, por alguma coisa que saiu errado, preencheu por fora e não por dentro. Mariana então, descobriu porque era leve e achou que aquele livro de capa dura seria sim, um ótimo manual de como dá certo perante aos outros, mas não conseguia sequer terminar a leitura de um capítulo. Era uma literatura muito sem graça. Uma constatação perigosa para quem seguiu a vida toda desenhando palavras em linhas. Chegou a ficar com raiva daquele maldito silêncio que apareceu como visita não convidada, naquela quinta-feira que poderia ter sido apenas mais uma página. Quem escreveu a entrada daquele momento mudo ela não sabia dizer e ao perder o controle de tudo, Mariana passou três dias dormindo. Acordou com lembranças boas, pois sonhou que tinha desejos seus. Ela chorou na janela tentando lembrar quem nesse mundo tinha desejado aquela vida toda de 29 anos. Mas não lembrou de ninguém que quisesse tanto fazer administração.



( "Nunca é tarde para deixar de ser Mariana", diz a querida Janinha)
A imagem é de Edgar Degas

3 comentários:

natércia pontes disse...

Que bonito Lina. Bom te "conhecer", conterrânea. Um beijo em ti e em todas as marianas quem existem na gente.

Anônimo disse...

sabe? é bom receber um recado carinhoso depois de um dia esquisito... muito obrigada. a propósito, meu nome é - adivinhe? - Mariana... hehehe

um beijo, moça.

www.enloucrescida.blogger.com.br

Vitor Freire disse...

“Tem vezes que tudo cansa, até o descanso”