sábado, 25 de agosto de 2007

Preocupa-me


Que eu não deixe de me preocupar com as coisas que realmente me preocupam nunca. Todo o resto pode se perder, migrar ou até ser roubado. Mas as minhas preocupações mais autênticas eu quero costurar em pele e levar comigo sempre. São elas que fazem a minha pessoa, muito mais que qualquer documento, depoimento, relato, opinião, diário, característica ou os meus escritos. As coisas que realmente me preocupam me fazem chorar e também cessam meu choro. São elas que juntam todas as minhas lágrimas formando um espelho do qual não preciso fugir. Por vezes, fico triste comigo mesma e na briga aponto o dedo e digo todas as razões da insatisfação que tenho. Tinha de falar menos, evitar as inimizades, não baixar a cabeça e nem engolir choro, cuidar do impulso, não falar muito de mim, dosar o criticismo, não deixar que digam o que sou. E assim, tantas vezes desejo ser outra. Mas quando penso nas minhas verdadeiras preocupações é como fazer as pazes comigo mesma, pois vejo que valho a pena, que mereço a minha própria compreensão. Já que tantas vezes não contarei com a compreensão do outro, que eu saiba, pelo menos, onde posso achar a minha.
(imagem: Picasso)

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