Eu nunca quis ser atriz. Amo teatro, leio teatro, escrevo teatro, assisto teatro, mas até então, nunca tinha tido vontade de ser atriz, nem por um dia. Até então. Até ver aquelas caretas achando sua casa, aquelas estripulias ganhando razão, as macaquices, gracinhas, piadinhas sem graças, trejeitos, palhaçadas, até ver, enfim, a Michelle num palco. Eu confesso aqui só para você – em segredo! – que eu quis ser atriz numa segunda-feira aí qualquer. Uma única segunda-feira em que acordo, sou atriz, começo a semana como atriz, depois durmo e com o sono encerro a minha carreira. Assim, simples.
Eu também nunca quis fazer balé, viu. Balé mesmo, eu nunca quis. Já sou bailarina, ora esta, para que fazer balé? Mas quando eu vejo o balé na Michelle, quase me pego dizendo: “uma aulinha só, vai”. É verdade. Verdade, verdadeira, íntegra, transparente e inédita. A Michelle, desde que nasceu, é minha irmã. Não, não desde que nasceu. Desde que a alma da Michelle nasceu. Não, não de novo. Desde que a minha alma – que certamente é mais velha que a dela – nasceu, nós somos irmãs. De alma! Sim, também pelas nossas identificações. Mas não só por isso. Não é tão difícil assim se identificar com alguém. Eu sei disso, você sabe, todo mundo deve saber. Acontece que, além de identificar, tem tudo isso que ela traz para mim de novo e tudo o que eu levo para ela também. Isso, nem vem que não tem, não é fácil de achar.
Eu tive até vontade de vestir macacão de chita e ir ao parque só porque eu sei que a Michelle também tem um macacão de chita e a gente pode fazer umas fotos, que vamos achar a coisa mais linda do mundo todinho mesmo que ninguém ache a menor graça nisso. Eu também tenho até mais coragem de achar minha casa depois que vi a Michelle no palco, na casa dela. E a Michelle que vi hoje no palco não se refere só a Michelle que estava hoje no palco, mas também a Michelle que um dia já foi e a Michelle que ainda está por vir. Cada qual com sua cena.
Não foi pela peça, nem pelo texto, nem pela ausência de cenário, nem pelo apelo das músicas, nem pelo tema, nem pelas referências e nem pelo conjunto da obra. Foi somente pela Michelle no palco. E pela certeza que eu tenho que ela me ouviu dizer: “Toda gente homenageia, toda gente homenageia, toda gente homenageia, to-da gen-te ho-me-na-gei-a”, lá do meio da platéia. Mesmo que eu não tenha dito. Ela escutou todas as vezes em que eu disse, todas as vezes que eu não disse e todas as vezes que eu ainda vou dizer mesmo não dizendo. É esse ouvidinho dela, a vozinha minha, o silêncio dela, a bagunça minha, a risada dela e o meu choro... Tudo isso que não precisa aparecer para que a gente sinta. Tudo isso que não é substantivo, mas que não existe menos por conta disso. Aquilo que deixa eu ir porque não há distância que me impeça de estar perto da Michelle.
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