quarta-feira, 5 de setembro de 2007

A morte do chinês





Janis nunca pensou, nesses vinte e tantos anos, que poderia ser uma homicida. Mesmo sendo um assassinato imaginário, existente apenas numa carta e com o objetivo de fazer seu amigo chover. “Os japoneses não choram, querida, somente de alegria diante da morte de um chinês”, disse ele contando vantagens e sacaneando, simultaneamente. Como poderia suportar aquilo, de uma amizade que fez por ela o que nem ela mesma tava querendo fazer? Não suportou. “Alguém me dê peruca, óculos escuros e chapéu, por favor”. Era uma vez...


37. 38. 39... 43 vezes. Exatamente nesse número ele decidiu intervir na cena. A menina de 24 anos estava em frente ao aparelho de som que dizia -- e ela, em prece, repetia: “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu / a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu. Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu / a gente estacou de repente ou foi o mundo então que cresceu. Tem dias...”. Ele se aproximou cirurgicamente e então, pediu à menina que deixasse a música seguir para que depois dela viesse outra. Ela não ouviu nada. Ele falou mais forte e ela negou. Ele insistiu e ela negou novamente e então, acho que ele entendeu que ela não suportaria perder também aquela música e disse que queria lhe mostrar uma outra canção, mas que depois dessa, voltariam àquela parte tão interessante que ela estava ouvindo. Foi aceito. Ela concordou, sem olhar para ele e sem sair de perto do som. O interventor, que já tinha reconhecido o CD, foi certo ao número 8. “Não chore ainda não...” e ela parecia nem ouvir. Quase autista em sua aparente nenhuma relação com o outro. Mas que engano. “Agora amiga, já pode chorar”, e ela conseguiu enfim, ter a permissão para seguir. Ele continuou ali, como a mãe que acompanha a descoberta do choro, das primeiras palavras e o reconhecimento do próprio corpo, sem ter idade, função, obrigação, gênero e talvez, sem ter a menor vontade de fazer isso. Fez.
(O chinês perde os braços)


Madrugada na net. Ele baixava músicas e filmes num hobby-vício que lhe perseguia como nicotina. Puxa um papo para distrair sem querer dele longos parágrafos, mas ela chora já na primeira linha. Palavras desconexas, cachaça no corpo e também na alma. Desespero, necessidade de dizer o quanto desejava findar a dor ou encontrar a morte. Ele escuta os lamentos em vez do Sinatra baixado. Hum, não era o plano para aquela noite. Ela chora e fica dando voltas no suicídio como se ele fosse a solução até mesmo para a queda na bolsa. Cada vez mais embriagada, como quem vira bebida numa relação 1 litro por minuto. Se já não dava para ouvir Sinatra antes, agora também não era permitido despreocupar-se. E foi entre doses de cuidado (dele) e desespero (de ambos) que ela anunciou: “Vou pegar o carro e sair para comprar cigarros”. Não podia! Mal sabia dirigir num dia de emoções controladas, imagina nesse de sentimentos bêbados e desaforados. Então, ele se despiu dos planos de uísque, música boa, pijama e descanso e vestiu qualquer roupa para oferecer socorro antes do acidente. Foram 15 kilomêtros percorridos às 4 da manhã e apenas uma frase:
“Aqui estão os cigarros”.
(O chinês perde as pernas)


Quando o estado da poesia é de angustia o sono fica como um freelancer e não trabalha em horários certos. Assim estava. Numa dessas noites sem sono, a dor era tanta que ele mesmo ficou desconcertado do outro lado da linha. Mas estendia a conversa porque não se deixa só alguém que chora certo abandono. Quanta tristeza naquela ligação, por vezes só com a voz do choro. Quase gritando, forte, pedindo ajuda sem saber quem poderia de fato ajudar. Ou melhor, percebendo que teria mesmo de passar por aquilo. Conversaram na tentativa de deixar o choro derramar mais leve e a dor também até que, ao ouvir uma historinha contada pelo amigo, ela adormeceu. Assim, repentinamente. Estava acordada aos prantos e de um segundo para o outro, dormiu. Com telefone na mão e o amigo na linha. Não. Ele não desligou. Não iria embora assim, ela poderia se assustar, ficar pior, sofrer. Permanece naquela ligação muda regida por respiração por mais de vinte minutos. Fica. “Olha, vou apertar uma tecla e isso vai causar um barulho. Não se assuste. Não precisa se assustar. Já, já vai vir o barulho e é apenas para você acordar sem susto”. E sem susto ela acordou e voltou a dormir docemente agasalhada.
(O chinês perde os pequenos olhos)



Desde então, quando quer sorrir um sorriso argumentado, ela lembra dele. De quando ele foi tirá-la de um lugar que tinha lhe deixado doente; de quando ficou ao lado dela, mesmo ela sendo péssima companhia; da vez que se preocupou e a seguiu de carro para saber se ia acabar tudo bem; do CD gravado com suas músicas favoritas do Chico; das ótimas conversas; do “O Pequeno Príncipe” em DVD; da trilha sonora de "Nós que aqui estamos, por vós esperamos", que ela tanto queria; da discussão sobre a possibilidade ou limitação diante de uma obra de arte; do violão na praça... (parte eternamente em contrução). Lembrou que por ele faria coisas que não se daria o direito de fazer por mais ninguém e que tinha por aquele amigo um amor que duraria todas as vidas que a religião mais exagerada pudesse prometer. Ela sabia que por ele, a menina que lacrimejou por 24 horas a morte de uma pomba, cometeria um lítero-assassinato. Enfim, nunca esqueceu, nem por um segundo, a troca digna de uma amizade, que, Meus Deus, tinha de fazer um oriental chorar.
(O chinês perde a cabeça)

(Imagem: Tomie Ohtake)

4 comentários:

fale com ela disse...

A garota das ervilhas perde os sentidos.
Este texto tá bom demais.

Lua disse...

Fale comigo ( sem coma, por favor) sempre! Que bom que gostou. Quem é tu?
Bjos, Lina

fale com ela disse...

Eu sou uma garota no mundo das ervilhas.Quer conhecer o meu mundo? Vai lá:
www.pequenaservilhasenesperas.blogspot.com
Bjos, Carmen.

Leo Caobelli disse...

y yo soy un pibe en el mondo de las lechugas!
Tu é uma malinha. Vamos almoçar esses dias?