
Eu queria que existisse uma lei capaz de proibir pai e mãe de morarem em cidades diferentes. Quer dizer, quis isso antes de perceber que a distância pode estar próxima. Tenho vergonha do jornalismo quando leio a revista Veja, da televisão quando vejo a espetacularização da (não) notícia feita pelo fantástico, as bobagens que são despejadas para gente que tem a TV como única fonte de informação. Tenho dúvidas sobre como andam levando a vida - olhar os outros é olhar para mim -, e passo a ter inquietação em quase todas as horas do meu dia. Mas gosto de deitar na areia e não me importo com os grãos que grudam no cabelo e demoram a sair e abro os braços para vestir o vento que envolve meu corpo como um leve tecido, fazendo pose de autor do desenho. Eu gosto de ler Machado de Assis pela terceira vez e descobrir que ele é ainda melhor e de ouvir a mesma música todos os dias durante meses para só depois ter uma opinião sobre ela.
Eu gosto de colocar roupas esquisitas e andar pela rua bem à vontade. Tento achar soluções em Sampa cidade que me sufoca, mas que sempre apresenta pessoas que seguram a minha mão. São Paulo causa a doença e doa o remédio e eu fico sem saber se fico sempre nesse ciclo ou se tento ousar uma vez na vida e volto pro barulho das conchas como pode fazer uma jovem de 24 anos. Eu posso gritar numa festa, posso chorar em soluços, eu posso ter dúvidas, posso cair em crise e tenho que me perdoar por isso. Eu posso me apaixonar pela pessoa errada, ficar 8 meses desempregada, posso conhecer uma pessoa especial e tentar de novo, sair feia em uma foto, engordar, posso perder um jogo de cartas. Eu posso sonhar que estou grávida, ver a criança linda que um dia chamarei de filha, dar um nome à filha que ainda não veio, posso dizer que este nome é Lua e posso até imaginar como vou explicar tanta falta de explicação para ela.
Eu posso ter um amor reprimido, um amor rejeitado, um amor proibido, um amor escondido. Eu posso tropeçar na rua e ver que aquele menino lindo que mora do outro lado está se divertindo com a queda. E sim, pessoas caem! Eu posso ser a pessoa mais alegre do mundo e chorar toda vez que chego em casa, antes de dormir. Eu posso sorrir até durante um beijo e sorriso largo, grande que mostra aquela que todos querem ver. Eu só não posso é entender que posso. Escrevo como se falasse para mim mesma porque eu olho os objetos no meu quarto e parece que eles não são do meu quarto parece que o porta-retrato não guarda retrato, que o cinzeiro não comporta cinzas, parece que o porta-jóia guarda segredos, que o cabide pendura decisões, que a cama virou encosto, que a mesa é cadeira, a cadeira é escada, a janela não abre, o mural brigou com as fotos. E assim eu não sei se tenho ofício, terra, sonhos, não sei se tenho cura.
(Um texto de dois anos atrás. Que já fala da Lua, já fala da busca pelo mar, já fala do Juba. Eu tava agoniada hoje e quando achei este texto melhorei. Definitivamente, não acredito em coincidências)
Imagem: Salvador Dali
3 comentários:
nossa.
é isso.
lindo... bjs.
Coisa bem boa deste mundo é encontrar um texto antigo que seja capaz de curar. E cura, um pouco, né?!
Mari, flor, que bom ter te conhecido. Passo sempre no seu Banzo, viu. Bjos e obrigada pelo carinho.
Meninas das ervilhas, achar um texto assim é sempre bom demais. Eu tenho certeza que ele foi achado para isso mesmo, dar um colinho.
Bjos nas duas,
Lina
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