
Viagem de criança
Quando eu era pequena achava que meu pai era capaz de tudo. Ele venceria o ladrão armado, a onda grande, um carro que vinha bem rápido em minha direção. Meu pai estava longe dos comuns, tinha poderes todos focados em minha proteção.
Viagem de amor
Eu, quando amei a primeira vez, podia jurar com os dois pés juntos que era para sempre. Por mais eterno que pudesse ser o sempre e por mais que me faltasse a definição de eterno. Só não jurei porque nunca, nem de longe, eu duvidei e o juramento é o encontro com a dúvida.
Viagem à praia
Parecia que eu tinha adentrado num quadro de artista daqueles que gostam de imagem bonita e fielmente retratada. Porque era areia branca e escorrida que em São Paulo não tinha. E tudo então passava a ser diferente, até as coisas que eram repetidas. O que eu estava vendo era novo. O que não era, mudara de nome.
Viagem de Luz
O meu nascimento, nas muitas vezes em que nasci, foi sempre um rompimento com o confortável. Saí daquele útero quente e adequado para o desamparo da descoberta. Sim, todo nascimento é dor, em algum momento, por alguma razão. Sempre que nasci para uma ocasião acabei, de fato, morta para outra.
Viagem de fuga
Eu já vi cura em cachaça. Coloquei em cada gole a vontade de ser outra pessoa. Não queria mais aquela dor que me atormentava a alma, nem aquelas questões tão só minhas comigo mesma, que formavam -- em suma -- o maior de todos os meus problemas. Só que a cachaça acabava sempre por me mostrar que a pessoa transformada também sofria. Parece que nenhuma máscara fica boa em bêbado.
Viagem de Fé
Eu vi Deus com forma, sexo, força, cara, nome, poder. A dinvindade que me iluminava e me punia, que via tudo, que estava por traz de tudo e que me salvaria, se assim quisesse.
Viagem de dentro
Só a minha roupa destoava, o meu cabelo não penteava, a minha nota não alcançava, o meu pé não corria, a minha letra não desenhava, o meu corpo não oferecia, a minha atenção era desperdiçada, só a minha voz não era ouvida, o choro acalentado, minha vontade atendida, só o meu sofrimento não era compartilhado. Era o mundo contra mim numa luta necessariamente desleal, meus órgãos esmagados sem espaço, respiração acelerada, desespero por não existir.
Viagem à montanha
É bom saber, já antes de embarcar nessa, que se subiu vai ter de descer. Pode parecer muito merecimento ter escalado até o alto e poder ver tudo de cima. Eu vi de cima como as coisas embaixo ficam pequenas. Me senti mesmo muito melhor do que todos você ai, abaixo de mim, menores que eu, quase maquete, enfeite, quase formigas. O difícil é ao descer, perceber que tudo é uma questão de proporção. Não adiantou esmagar vocês com os olhos porque quando de baixo olhei para o alto lá já estava outro alguém me impedindo.
Viagem à carne
Quando um outro corpo entra no meu e dois contornos assim, tão diferentes, passam a ser uma peça única, que se encaixa, se movimenta e se complementa. Quando a melhor sensação de todas as já visitadas pode vir desse movimento e ser intensa, mesmo que tão efêmera. Dá vontade de gritar que estamos nos sentindo bem. É lado bicho que ganha do lado gente e a gente que passa a ser bicho com requinte de gente. Come feito bicho, mas goza como gente.
(Fiz este texto para uma performance com as atrizes Michelle Cavalcanti e Roberta Val, que apresentaríamos nas ruas e na nossa festa, como fizemos com a peça Permuta. Acabou não acontecendo.)
Quando eu era pequena achava que meu pai era capaz de tudo. Ele venceria o ladrão armado, a onda grande, um carro que vinha bem rápido em minha direção. Meu pai estava longe dos comuns, tinha poderes todos focados em minha proteção.
Viagem de amor
Eu, quando amei a primeira vez, podia jurar com os dois pés juntos que era para sempre. Por mais eterno que pudesse ser o sempre e por mais que me faltasse a definição de eterno. Só não jurei porque nunca, nem de longe, eu duvidei e o juramento é o encontro com a dúvida.
Viagem à praia
Parecia que eu tinha adentrado num quadro de artista daqueles que gostam de imagem bonita e fielmente retratada. Porque era areia branca e escorrida que em São Paulo não tinha. E tudo então passava a ser diferente, até as coisas que eram repetidas. O que eu estava vendo era novo. O que não era, mudara de nome.
Viagem de Luz
O meu nascimento, nas muitas vezes em que nasci, foi sempre um rompimento com o confortável. Saí daquele útero quente e adequado para o desamparo da descoberta. Sim, todo nascimento é dor, em algum momento, por alguma razão. Sempre que nasci para uma ocasião acabei, de fato, morta para outra.
Viagem de fuga
Eu já vi cura em cachaça. Coloquei em cada gole a vontade de ser outra pessoa. Não queria mais aquela dor que me atormentava a alma, nem aquelas questões tão só minhas comigo mesma, que formavam -- em suma -- o maior de todos os meus problemas. Só que a cachaça acabava sempre por me mostrar que a pessoa transformada também sofria. Parece que nenhuma máscara fica boa em bêbado.
Viagem de Fé
Eu vi Deus com forma, sexo, força, cara, nome, poder. A dinvindade que me iluminava e me punia, que via tudo, que estava por traz de tudo e que me salvaria, se assim quisesse.
Viagem de dentro
Só a minha roupa destoava, o meu cabelo não penteava, a minha nota não alcançava, o meu pé não corria, a minha letra não desenhava, o meu corpo não oferecia, a minha atenção era desperdiçada, só a minha voz não era ouvida, o choro acalentado, minha vontade atendida, só o meu sofrimento não era compartilhado. Era o mundo contra mim numa luta necessariamente desleal, meus órgãos esmagados sem espaço, respiração acelerada, desespero por não existir.
Viagem à montanha
É bom saber, já antes de embarcar nessa, que se subiu vai ter de descer. Pode parecer muito merecimento ter escalado até o alto e poder ver tudo de cima. Eu vi de cima como as coisas embaixo ficam pequenas. Me senti mesmo muito melhor do que todos você ai, abaixo de mim, menores que eu, quase maquete, enfeite, quase formigas. O difícil é ao descer, perceber que tudo é uma questão de proporção. Não adiantou esmagar vocês com os olhos porque quando de baixo olhei para o alto lá já estava outro alguém me impedindo.
Viagem à carne
Quando um outro corpo entra no meu e dois contornos assim, tão diferentes, passam a ser uma peça única, que se encaixa, se movimenta e se complementa. Quando a melhor sensação de todas as já visitadas pode vir desse movimento e ser intensa, mesmo que tão efêmera. Dá vontade de gritar que estamos nos sentindo bem. É lado bicho que ganha do lado gente e a gente que passa a ser bicho com requinte de gente. Come feito bicho, mas goza como gente.
(Fiz este texto para uma performance com as atrizes Michelle Cavalcanti e Roberta Val, que apresentaríamos nas ruas e na nossa festa, como fizemos com a peça Permuta. Acabou não acontecendo.)
Imagem: Magritte
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