
Clara sempre dava três goles casadinhos
Qualquer que fosse a bebida alcoólica
E depois deixava o copo descansando entre seus dedos.
Por vezes girava enquanto olhava profundo
Por outras abandonava na mesa até os próximos três goles.
Nunca entendi porque Clara fazia aquilo
Até que percebi a singularidade de suas coisas comuns.
Ela piscava devagar.
Sorria duas vezes, ensaio e estréia,
Sempre
A saia dela rodava
E o seu andar, invariavelmente, roubava atenção de alguém.
Mas se mostro em foto há quem nem ache Clara bonita.
Ora, retrato não mostra as banalidades
Da mulher que escuta como quem fala.
Ao contar algo a ela
Abriga-se a sensação de ser frequentemente interrompido
Pelo seu silêncio.
Caladinha, Clara diz.
Sim, desde o “Bom te conhecer”
Sou realmente apaixonado por Clara.
Minto.
Pode ter sido antes disso
E talvez o nome do que explode aqui dentro em calmaria não seja paixão.
Clara é como aquele quadro de Magritte,
Me intriga ao mesmo tempo em que não liberta o meu olhar.
O nome dela é Clara.
Desconfio que a Dona Januária já sabia que filha teria
Ao batizá-la antes do nascimento.
Parece simples,
Mas é na clareza de Clara que eu me perco.
Tão coesa na diferença que fico tonto por não decifrar.
(Imagem: Porque Dali era louco por Gala, eu sou louca pela Michelle e ela -- além de mãe da Clara -- é louca por Dali)
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