
“Eu te amo pelo que tu és”. Cíntia tinha uma carta de amor, mas Malu não. Cíntia era alva, ruiva, mostrava elegância até de moletom e era meiga, o que causava em Malu um ódio triplicado. Ódio da meiguice, ódio por odiar a meiguice e ódio da proibição de se odiar meiguices. Enquanto Cíntia sorria míope para a rinha, Malu não era imune àquela benevolência. Não quis a serenidade, nem o moletom, nem aqueles passos na ponta dos pés. Mas desejou uma carta de amor. Chegou a roubar, riscou o nome e escreveu o seu. Leu em voz alta para se convencer. “Igor lê isso pra mim”, pediu ao irmão. Gravou e tornou a ouvir. Mas não conseguia acreditar. Tentou o moletom, o sorriso, o passo de pena, ler novamente e então, isso virou um hábito. Um vício. Uma dependência. Dopada, não chegava a ser a outra, mas também não era mais ela. “Eu te amo pelo que tu és”. Já não dizia mais nada.
(Imagem: Eu tava com saudade do Magritte)
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