segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O outro


Ela tava com a casa quase toda fechada querendo fazer parecer noite. Mas era dia de sol forte daqueles que quase gritam para acordar. Ela ignorou. Naquela casa fechada ia andando de um lado para o outro, quase parada. Bem no meio do corredor, na metade exata. Ana tinha uma dor incômoda, mas não sabia de onde, não tinha memória. Não podia ter amigos — laço tem relação estreita com o recordar — e, portanto, quase não saia. Já que também quase não lembrava.

Quase toda quarta-feira Ana chovia. Por isso, andava sem roupa naquele dia. Dava trabalho secar o corpo repetidas vezes e vê-lo sempre retornar a molhar. Aquela garoa que engana e quase enganava ela, que já chove há anos, com freqüência. Traída pelo esquecimento. Ana queria andar pela casa, mas quase sempre esquecia para onde tinha de ir. Ali ficava. Quase sempre nua, já que não lembrava qual era o dia exato de sua chuva. Quase não reparava nas coisas, já que não ia guardá-las mesmo, e por isso, quase ficou surpresa quando reparou naquele baú. Quase sem cor. Foi até lá e abriu aquilo como pela primeira vez. E lá estava um vestido. Quase antigo.

Ana vestiu o vestido e foi andando sem pensar pra onde. Andou diferente. Ela que nada tinha, agora tinha um vestido. E não ficou parada porque sabia que se esquecesse do vestido, ah, ele não poderia esquecer dela. Ana nunca tinha pensado que a memória que não era dela, podia, oras, pertencer ao outro. E por isso era sempre quase. Mas agora... Agora ela tinha um vestido.
(Imagem: Magritte)

3 comentários:

Anônimo disse...

Ai que lindo, lindo de fazer chorar!]
Beijos
Roberta

Lua disse...

Este texto já esteve no blog, mas um pouco diferente. Na versão antiga, além disso tudo, Ana chovia. Depois vou postar tbm a versão antiga. Bjos

Lua disse...

Rô, troquei pela versão antiga, veja se gosta. Bjos