
Eu tenho uma timidez de gaveta. Mas uma gaveta com puxador autônomo, pois é ela que decide a hora de se abrir. Frequentemente sinto cair numa cilada de mim mesma por ser tão antagônica na essência e tão homogeneamente panfletária na propaganda. Nasci emocionada e por isso, quase sempre tenho vontade de chorar e praticamente na totalidade eu não o faço. Engolir choro eu aprendi antes de ler. Sinto-me só na minha diferença porque as emoções das pessoas parecem pertencer a uma mesma linha. São similares, ou melhor, proporcionais. A minha errou a escala.
Tenho um jeito imperceptível que na verdade suplica para que aceitem minha estranheza. Penso ter cada uma das muitas cores da cartela e também o desejo de ser cinza só para poder, vez ou outra, existir numa inexistência. Um colorido-cinza. Sonho em poder correr e chorar como um canto -- sem ter de explicar e na companhia de alguém que me receba e sem nada dizer me deixe dormir de tanto soluçar forte. Que esta pessoa possa até esboçar o leve sorriso da certeza de que tudo aquilo vai passar. Não se assusta como meu choro, mas também não o ignora. Deixa-o entrar, crescer, viver e morrer de velho. A dor que não vinga pode um dia vencer. Eu não me sinto à vontade comigo mesma sempre e também por isso não posso me sentir à vontade sempre com qualquer outro.
Eu não sou quase nada que pareço ser. Já tentei mudar isso, mas meu criador fez capa e conteúdo incompatíveis e consegui me livrar dessa culpa. Acho. Já encenei outros jeitos, mas escrevo muito errado com a mão esquerda, então o meu natural é mesmo parecer ser e o meu castigo é, talvez, não conseguir honrar. Não, não sou uma farsa. O melhor seria explicar que tenho os dois lados, mas que eles não se encontram religiosamente. Parece que muitas vezes um aparece na segunda-feira, quando o outro só gosta da sexta.
(Imagem: Magritte)
1 comentários:
"Engolir choro eu aprendi antes de ler". Realmente gostei disto. E acho que também aprendi a engolir choro antes de escrever, mas não havia me dado conta disto.
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