

[Sem deixar de ser supresa, foi também alívio. Toda a colagem formava mesmo uma de suas imagens e semelhanças.]
Pedro tempera a palavra na boca e depois engole. Tem de ser sagaz para fotografar o momento, pois é rápido como um deslize. Como a falha imperceptível da batida de asas daquele pássaro que saiu descompensada. É tão natural que não pede para ser percebido. Penso que a palavra deve apresentar arte de circo no estômago dele, revirando em cambalhotas. Isso doi e incomoda, não há dúvidas, mas a tal refeição é uma forma de mea-culpa. Engole como quem questiona a si mesmo: Até onde posso ir? É uma generosidade nociva. A agonia encarna no instante em que ele engole o que talvez fosse uma solução. Mas ele opta por, antes de qualquer seqüela coletiva, tentar digerir. E se sua consciência der o aval, aí sim, ele pode vir a vomitar.
- É porque não nasce de livro.
- O que?
- Sabedoria, não vem de livro. Conhecimento vem.
- Mas não é conhecimento que te encanta?
- Não, é conhecimento que me move, mas o que me resolve mesmo é sabedoria. É o que me cala a boca, me embriaga, é o que me faz chorar admirada, pelplexa, cheia de emoção genuína.
- Tu chora mesmo?
- Sabe Caymmi?
- Ah, eu choro com Caymmi...
- Pois é isso. A beleza do simples.
- Tá dizendo que sabedoria é como Caymmi?
- Isso. E o Pedro também.
Eu tenho vontade de me multiplicar e formar uma fila. Todas as eus atrás do Pedro, imitando ele flutuar. Sorriso solto, voz de carinho e um respeito muito bem distribuído em todos os seus trejeitos. Nenhum fanatismo atrás de intelectualidade e o motivo é simples. Ele pode ter a vontade de ir, em vez do desespero: não depende dos livros para ser.
Pedro olhou para mim e me teve.
Tem a paciência de quem arruma comida no prato. Pedro é quase um som de Bob Marley. Casou a calma com o bom-senso, tornando-se assim o melhor conselheiro já visto. Isso porque ele bem sabe que a maioria das respostas mora na própria narrativa.
Pedro sabe encaixar as coisas certas em seus devidos momentos. Vale mais do que mba no exterior. Pelo menos, no palco em que dança. Sabe ser funcionário, sabe ser dançarino e, talvez isso nem ele saiba que sabe, sabe também ser platéia. Transita entre estrelato e público como quem vai pegar água na cozinha. Assistir é um ato que cobra talentos raros.
E para além do além tudo. Sabe amor de cama. Arde, cuida, faz tremer.
[Logo de manhã. Deveria ser ilegal assustar alguém antes do almoço. Espantando, ele teve olhos e mente capturados. – Quem grudou tanta coisa no meu espelho?]
Nota do autor: Pedro é o masculino de Pedra ( e isso faz ele rir). Até então, eu nunca tinha escrito sobre homens.
(Imagem: Porque Pedro faz aniversario no dia de Vinicius de Moraes e Vininha sempre carregava com ele um quadro de Portinari.)
7 comentários:
Pedro não tem coração de pedra, e chora colorido. Que texto lindo, Lina.
Obrigado por me ensinar tanto sobre a vida.
Com amor,
Te amo tanto...
Ahhhhhhhhhhh
Que lindaaa!!!
Meu amor, quantos sorrisos tu tem me dado!!
Lindo quadro. Vininha realmente não podia largá-lo.
Hoje eu te amo mais do que ontem.
Beijo na boca
To que não me aguento de tanta felicidade!!!! Parabénsssssssssssssssss!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Qualidadeeeeee no jornalllllll!!!
Além do primeiro texto sobre homem, ganhou duas imagens.
Bonito mesmo esse Pedro.
Não me canso de ler...
Postei errado e saiu anônimo. Te amo
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