
Que péssima mania de ter manias tem a Talita. Eu já dizia em pensamento que assim ela ficaria só. Se casar com um sem-manias ele não há de entender porque tanta dedicação ao nada e se casar com um cheio-de-manias não existirá tempo para o nós porque as manias são individuais, intransferíveis e subjetivas. Pelo menos essa vantagem ela tem, não sai por aí pegando mania de ninguém por saber que mania roubada tem vida curta -- Talita quer as que durem tanto quanto ela. Tem mania de apego.
Eu bem vi como isso tudo começou. Vi sim, daquela casa pequena que meu pai cismou em pintar de amarelo. Daquela casa ali, quase grudada com uma casa que já foi vazia – antes das manias. Lembro daquela menina pequena que andava leve como se fosse oca. Lembro de como ela era capaz de acordar e dormir sem ter preenchido um dia. Lembro de tê-la visto agüentar isso por um longo tempo, militando na causa do próprio recheio. Eu que por anos engrossei o coro dos que achavam que ela nada fazia, hoje sei que era ali que ela lutava. Em causa própria, e por que não? Enganam os que pensam que existir é nato.
Cheguei mesmo a julgar minha vizinha achando que mania era colocar limite ao estar bem. Afinal, ela sustenta que para comer prazerosamente: só se for bem devagar e com suco de fruta levemente gelado ao lado direito do prato; para ter um bom banho: água mista, espuma, três tipos de esponjas e sempre cinco pulinhos de finalização; para sentir um orgasmo: sexo com início, meio e fim bem programados. Toque, língua, fico por baixo, fico por cima e então gozo, segurando o lençol, apertando-o com força; para dormir na rede: balanço exatas 15 vezes antes de adormecer; se opta pela cama: perco pelo menos sete minutos estirando o lençol; se tem de ficar em pé: que seja contraindo os músculos. Não. Na verdade ela não sustenta as manias ela se sustenta com tudo isso. Mania de ter vida. Por isso deu logo um jeito e não morrer diante da frustração de não se achar. O que ela gritava pra mim era claro e disfarçado naquela mania de falar enquanto arrumava qualquer coisa, mania de sempre passar a mão na minha roupa como se aquele gesto fosse capaz de desamassar, mania de não me olhar nos olhos por mais de 30 segundos. Ela me dizia que mania é mais que um limite ao estar bem, mania é a frustração daquele que não se ocupou de si mesmo.
[ Quem, além do dicionário, falou que os vícios são supérfluos?]
(imagem: Magritte)
6 comentários:
adoro que vc cria personagens
tem algum critério na escolha dos
nomes? tem alguma coisa de real
nisso? depois, no blog do Caio
Fernando, procura por "Vai passar"
e em relação ao filme, são 21
estórias de 5 min cada uma,
feito por 21 diretores diferentes,
todas passadas em Paris, da pra ver
algumas no youtube, escreve "Paris,
te amo"
várias das suas entrariam lá =)
Beiijos! (pode ficar chato se eu
repetir, né?)
Meu amor, que lindo texto. Gostei muito disso "não sai por aí pegando mania de ninguém por saber que mania roubada tem vida curta -- Talita quer as que durem tanto quanto ela. Tem mania de apego."
Na boca.
Uma palavra: lindo!
Besos querida!
Mari
Uma palavra: lindo!
Besos querida!
Mari
[ Quem, além do dicionário, falou que os vícios são supérfluos?]
por que o uso de colchete?
Origada pela visita dos três. Quanto a pergunta do Julio, usei o colchete para dar a impressão de que não é parte, é sequência. Foi colocado depois, pode até ter sido por outra pessoa, ou seja, não é da mesma respiração que o texto. Bjos em todos.
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