quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Em nome do pai, da filha, da mãe e do ninguém-é-santo


Lua, minha filha,

Escrevo uma carta que talvez não escrevesse se você tivesse nascido. Palpite, claro, já que não posso prever a mulher que serei ao lhe dar vida. Está noite tarde e hoje não pus a cabeça nem para fora da janela. Agora deu vontade, para ver se acho aquela que lhe deu o nome. Você foi batizada por um astro, minha filha, e isso deve dizer muita coisa. Não sei com quantos anos você vai entender as coisas que realmente têm importância, mas acho que cedo, pois desde já confio tanto em sua sensibilidade, filha.

Hoje eu e seu pai não nos olhamos. Não diria isso a você jamais, mas como ainda não sabe ler. [Não conto às vezes em que já rasurei este papel para substituir os “tus” pelos “vocês”, mas me permita filha que eu cometa alguns erros em nome da intimidade]. Trocar olhar com seu pai está dentro da seleta lista de coisas mais que importantes a qual me referia há pouco. Ah, isso vale mais do que a viagem que você vai fazer aos 15 anos só porque suas amigas fazem, mais do que o primeiro estágio, a promoção no emprego, mais do que meu décimo terceiro – e olha filha que em família simples como a nossa um décimo terceiro vem bem a calhar. Mas se não tiver troca de olhar com seu pai, de que me vale os muitos restos? Eu fico assim meio de canto, com perna encolhida e vontade de chorar. Mães choram, Lua, às vezes como bebês.

Fui até a janela ver sua madrinha e lá está ela, naquele canto de céu sempre ao meu alcance. Todas as vezes em que precisei a Lua estava lá, minha pequena, e assim há de ser com você: protegida por uma luz que vem do céu. Fico feliz com esta herança que lhe dou em vida. Um sorriso em meio ao bico que sua mãe faz há anos e com nó na garganta de pensar que seu pai pode estar chateado por aí. Tens um pai bonito minha filha, você vai gostar de olhar para ele e vai entender melhor a falta que faz não tê-lo por perto mesmo que por breves momentos em que não se fala a mesma língua. Estou certa de que vai entender o que sinto longe dele mesmo que jamais saiba que hoje estivemos longe.
Eu quis deitar na rede e colocar você em meu colo. Desejei que a gente balançasse para tornar as coisas mais leves. Balançar com você na rede também pertence aquela seleta lista de coisas importantes, filha. Não esqueça disso. Seu pai ao nos ver ia chorar de canto. De feliz. Porque ele ia ver poesia em mãe e filha que balançam na rede. Ver poesia em coisas simples, Lua, acrescente à tal lista.
Pois eis filha que estou aqui nessas horas já passadas escrevendo o pensamento que já era para você. E o motivo pelo qual escrevo para você e não para uma grande amiga me é conhecido. Nenhum estranhamento em ver seu nome aqui, nesse papel de carta. Desde que encontrei seu pai tenho vontade de lhe contar como ele é. E achei que dizendo como fico jogada, olhando pra baixo e de voz bem baixa só porque não troquei olhares com ele, você entenderia tudo. Não, claro que não deixaria você ler esta carta, minha filha, se eu fico triste longe dele imagina você ao me ver triste. Mas agora eu posso contar, ainda faltam alguns anos para você nascer. Queria que tu soubesse que eu encontro vida ao olhar nos olhos de seu pai. A minha, a sua, a dele, a nossa... E ver vida em olhar, Lua, engorda mais um pouco a nossa listinha. Vale a pena.
Minha filha, eu já lhe amo. Agradeço muito pelo amor que sinto, pelo pai maravilhoso que você tem, pela saudade que ainda vamos sentir de tantas coisas boas que passaremos. Vou pedir desculpas ao seu pai e esperar que o olhar venha. Quem sabe tenho sorte e ganho também um abraço demorado. Abraço demorado, Lua, muito importante isso na vida!
Eu sei, eu sei, que me falta dinheiro para muitas coisas que, não sei por qual razão, custam dinheiro, sei que a rede à minha frente tem peixes coloridos pintados, mas que está fechada, sei que quase ninguém entende coisas minhas como esta carta, sei que a maioria das pessoas não se preocupa com a falta da troca de olhares num dia qualquer como esta quinta-feira. Mas tudo isso, minha filha, coloque na lista das coisas que não importam tanto assim. A incompreensão dos funcionários, a falação toda em torno do dinheiro, a correria do dia-a-dia sem música. E música minha filha você corre para colocar naquela nossa lista favorita, por favor. Harmonia e melodia me fazem de novo lembrar seu pai. A gente se ama, viu filha e eu vou esperar como quem espera um nascimento após meses de gestação que ele possa me olhar de novo.

Eu lhe amo. Muita luz para você.

Mamãe

P.S.: A Naninha, aquela boneca que tenho há mais de 20 anos e que será sua, está aqui ao meu lado e manda beijos

(Imagem: Ernst Ludwig Kirchner. Para que a Lua veja um outro lado da angústia. O expressionismo é um bom exemplo. Arte, filha, na lista das coisas que nos importam)


1 comentários:

Marcela disse...

"Eu quis deitar na rede e colocar você em meu colo. Desejei que a gente balançasse para tornar as coisas mais leves".

Lindo demais. beijo