sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Temperada


Nas muitas vezes em que eu encontro a Martinha me pego pensando quantos tipos de vida existem numa vida só. As pessoas que encontro, penso eu, são parte de minha vida. Isso me intriga pela quantidade de possibilidades de vida que, caramba, existem na minha. Martinha, por exemplo, é do tipo escorada. Adora ler muitos livros mesmo já ciente de que em todos eles, cada uma das páginas lhe diz exatamente a mesma coisa: nada. Vai lendo assim como quem masca chiclete, ocupando aquele montante de tempo que sempre lhe restou. Mas ela sabe dizer o nome de todas as personagens daquela estante, mesmo sem se identificar com nenhumazinha. As personagens têm nome e isso basta.
Lá vai Martinha andando de um lado para outro com uma camisetona que esconde o short dizendo os nomes soltos das moças, meninas, vilãs, donzelas, tias más, viúvas, chefes de familia, de empresa, de pose, de idade... Diz o nome e alguma coisa do tipo banal como, "Fabiano tinha um cachorro". Martinha constrói as pessoas pelas suas trivialidades e assim tece uma colcha sem tecido, sabe. Não tinha sustância. Por sua vez, Martinha era casada com César que quase não falava e quando falava era sempre algo do tipo deve-ser-dito. César era o cara da funcionalidade, aquele para quem falar geralmente antecede uma ação. Não, ele não conversa, não joga papo fora, não faz nada desnecessário. Duas vidas tão diferentes nesse casal que, sei la por que meu Deus, cruzou os meus caminhos.
Assim como a Beta que fala em escala, sabe. Pode até começar baixo - em geral numa altura normal, mas vai impreterivelmente aumentando. Para Beta tudo vale a pena, nada, nada, nada se perde, nem uma manhã de ver pássaro na janela. E quando estamos com ela somos contagiados. Ah, que vontade de achar tudo importante. Beta anda sempre com a Cacá e eu não sei o porquê. Cacá, sempre achei eu, tem pé no freio. Mas é boa gente, sim. Ah, boa gente todos eles são, mas a Cacá limita a Beta que não seria compreendida pelo César e nem suportaria a Martinha. Se viessem a se conhecer.
E todos eles passaram por mim e ficaram por muitos dias, talvez muitos que ainda virão e acabam, portanto, levando este monte de vida para a minha que, nem sei mais, sempre achei ser uma só. Todas as vidas que me cercam estão na minha vida de forma participativa, integrante, sócia e contribuinte. Isso hoje me emocionou e me assustou. A vida não é exatamente minha, só minha, fechada, lacrada e protegida. Por vezes tem de ser defendida, por outras tem de ser invadida mesmo - até para que eu lembre de resguardá-la. Fiquei aqui pensando e lembrei de como a vida do Claudio deixou astúcia na minha, de como o fora do Dudu contribuiu com minha marra, como a traição do Luiz me deu duas porções de "vou botar pra foder", de como a meiguisse da Clara me trouxe generosidade, de como a auenticidade da Teca me deu coragem, de como o receio do Vitor me fez chorar, de como a frieza da Sônia me deu senso crítico e fiquei me sentindo uma panela bem grandona com pirão, mexida por uma colher de pau e recebendo ingredientes muitos que não fazem com que aquilo deixe de ser um pirão, mas temperam. Eu sou codimentada por este monte de vida que passa por mim e me sinto bem com isso. Enfim, eu entendi porque quem me criou me deu olhos tão grandes.

[ Não, não tem tampa para uma panela tão grande]
Imagem: Picasso

5 comentários:

meu banzo disse...

ah tem sim! sempre tem! para uma panela bem grande, uma TAMPONAAA!!!

heheh... beijos bonita! lindo seu texto.

Lua disse...

Mari-flor,
A tampa que falo é somente um bloqueio para novos ingredientes. rs. bjos e tava com saudade

La robertita disse...

Adoro, adoro a tela.

Esse texto é o top-top para mim.

Isso porque disse mais do que eu disse uma vez para Michelle: "Somos um pouco das pessoas que amamos".

A arte é saber dosar.
Acho que aprendi, mas ainda sou muitas para depois ser eu.

beijos

Lua disse...

Rô, você acredita que eu quase deleto o texto? Achei que ficou ruim demais, mas acabei deixado. O quadro, ao contrário das letras, é de beleza estonteante. bjos

La robertita disse...

Não apagaaaaa......
Beijoss