quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A mando



Uma palavra às vezes não diz
Silêncio
Às vezes ordena
Silêncio
Às vezes cala
Silêncio
Às vezes dorme
Silêncio
Às vezes mascara
Fala mais baixo
Às vezes gradua
Si-lên-ci-o
Às vezes pede
Silêncio
Às vezes observa
Silêncio
Às vezes escuta
Silêncio
Às vezes fuxica
Silêncio
Às vezes determina
Silencio
Às vezes pra sempre
...
Ás vezes lava também


Sei não. Lavei o rosto três vezes como se isso fosse natural e depois achei estranho. Perdi então uns minutos da minha manhã – ai meu Deus, talvez horas – pensando o porquê de ter lavado o rosto três vezes. Coisa à toa, Amanda, nem tudo tem uma razão nessa vida, não somos assim tão importantes, nem tão destinados, nem tão perseguidos. Não? Mas então por que não lavei uma vez só como é o normal de se fazer, cáspita. Sei lá, Sei lá. Mais uma coisa que não se sabe. Mais uma coisa que me ocupa. E o ônibus demorou e já achei que era talvez um sinal de dia diferente iniciado pela lavagem exagerada. Quando entrei tinha lugar e não costuma ter. Poxa, eu lavei o rosto três vezes sem nem perceber, será justo ter de agüentar todas as conseqüências disso? Eu não sentei, não. Fui em pezinha, segurando com nojo naquelas barras de metal que todo mundo pega, olhando para os lados, evitando encarar as pessoas com aquele rosto lavado em overdose.
Achei estranho todo o caminho, todos os "bom dia", todas as pessoas que me olharam e todas aquelas que – por que?- evitaram me olhar. Senti a água triplicada molhando os detalhes do meu dia. Amanda tá tão bonita assim de cara limpa. Fiquei boquiaberta. Como ele sabia que eu tinha, sem querer, me empenhando fortemente nessa missão? O que ele quis dizer com isso, Deus meu, o que eu quis fazer com aquilo? Que dia, que dia. Para que inovar, pergunto-me a cada passo novo dessa vida deslavada. Não podia voltar atrás e tentei me enganar. Não lavei tanto assim. Mas não funciona mentir depois que já tá tudo lavado. A água, ao limpar, cala as impurezas. Falei assim, meio do nada, durante o almoço - como pensamento alto. "Quero minha sujeira de volta". Ninguém entendeu e eu também não expliquei. Tradução custa caro, penso eu. [Comecei a ter saudade de quando te desejava com força, Cris] Minha pele esticada e rígida pelo excesso de banho parecia uma máscara de anjo. [Anjos não transam, Cris.] E eu não tava suportando aquela higiene sem sentido dando outro sentido ao que eu queria mesmo era sentir. [Me come feito puta, Cris]. Mas eu tava lavada, não podia mentir, nem gritar, nem jogar os papéis no chão. Eu tava lavada e não podia mandar e-mails eróticos do trabalho, não podia me insinuar e nem sequer jogar sinuca. Não podia trabalhar, nem imaginar outro dia que não assim, não podia realizar.
Mulher lavada não bebe cachaça, merda e nem fala palavrão que não seja merda. Merda. Lavei o maldito rosto por três vezes [a mesma quantidade que Pedro disse “não, não conheço Jesus” e também por isso não posso pecar, Cris]. Não posso deixar de pentear os cabelos e nem jogar o resto de comida fora. Não posso gripar. De cara lavada tô aqui muda nesse dia em que a cabeça fala e tudo tem membrana selecionando. Esse entra, esse não. As ideias que passam são fortes e lavadas. Quero lama. [Me deixa contar para você que odeio aquela vaca, Cris].
Eu lavei o rosto três vezes e a água levou pro ralo a minha margem de erro. Olha eu andando em linha reta, sem tropeçar. [Quero cair em cima de você, Cris]. Não posso ler Sade de cara limpa, não posso me tocar e nem ouvir Mozart, não posso ir ao Satyros assim. Eu não posso rebolar com este cheiro de sabão, nem posso seduzir. [Você gosta das santas, Cris?].
Por que Amanda ainda não chegou? Aqui estou. Limpa. Vá ver se aconteceu algo. Não posso rabiscar, rasurar, apagar, não posso cortar a mão com folha de papel. [Nem te pedir desculpas Cris]. Na casa dela ninguém atende. Por que a Amanda não chegou? Lavei o rosto três vezes e não fiz mais nada além disso. E fui punida. Não posso falar, nem confessar, nem pedir que tragam minha mãe. Não posso ganhar peso, nem ser fraca e nem abusar do colesterol. [ De cara lavada eu não posso ficar por cima, Cris].

Água na cara. Mas talvez tenha sido por lembrança. Quando pequena ganhei nome assim. Nome, honra, respeito, presente e até lugar no céu. Só fiz aumentar a dose. [ Aquilo que cura também pode matar, Cris?]. Onde está a Amanda?

Apenas lavei.


Uma palavra ás vezes mata
Silêncio

[Se tiver um amanhã, Cris, esfregarei a mão na terra e quero ver se este rosto não suja]



Imagem: O Campo de Trigo com Corvos foi o último quadro de Van Gogh. As suas últimas palavras, dirigidas a Theo, teriam sido: "La tristesse durera toujours" ("A tristeza durará para sempre").

20 comentários:

Pedro Henrique de Abreu disse...

Dá tempo de voltar atrás.

Leo Caobelli disse...

Lavei o rosto depois de ler.
silêncio...
já gritou em silêncio?

Lua disse...

Voltar atras e não escrever uma Amanda que lava o rosto?

Leo A., meu querido, sim já gritei em silêncio. E dói.

bjos nos dois, Lina

Balela disse...

Nunca pensei que o silêncio fosse tão importante. Falo grito para não me escutar.

Mas não adianta, porque em silêncio, uma agunia aqui dentro, machuca.

Saudades.

Não quero mais ler esse texto.

Fernanda disse...

preciso devolver, à altura, as visitas que tu fez nas minhas Horas.
Questão só de me habituar aos novos horários e obrigações.
Que logo venho.
Que logo leio.

beijos

Filipe disse...

Voltar e re-voltar. A água que cai da torneira é a mesma que move o moinho, mas o passado não volta. Não do mesmo jeito com que já foi presente.

Maroca disse...

cara, quem é você? porque aqui tá cheio de gente conhecida... e daí eu li e fiquei com uma sensação comovida, pq faz muito tempo que não tenho conseguido escrever como gostaria - nem por dentro, e eu me esqueço de que pode haver essa sensação de encontro, pq tenho lido tanto texto teórico e tenho sentido tanto tumulto e vontade de chorar - fiquei com uma frase voltando, que o homem desta vida moderna não era mais o homem sem qualidade, mas o homem sem vínculo e é assim que eu tenho olhado pra mim e pra estes tempos, ultimamente tanta tristeza... mas então eu li e senti uma comunhão com algo, pensei realmente: será que ela mora em são paulo pra tomar cerveja hoje depois do curso? não pensei como possibilidade de fantasia, mas de ação; e fiquei pensando, tentando lembrar: quem é ela?

Marcos disse...

Aqui é um bom lugar.

Leo Caobelli disse...

te deu mal, dona maroca, ela morava em são paulo, mas recusava os convites de tomar cerveja... Lina gosta da mística de te estar sempre longe

Vivian Fiorio disse...

Texto lindo, comovente... parabéns!

Lua disse...

Fernanda, não precisa o ter de ler nem de retribuir. Eu visito o teu naturalmente e é por gosto. bjinhos

Robertinha, ficou pesado assim o texto? bjoss

Que bom que voltou, Filipe. Bjos

Mariana, eu aceitaria de mto bom grado esta cerveja, mas estou fora de Sampa há 4 meses. Expliquei melhor no teu blog. Bjos

Marcos, que bom que gostou! bjos

Leo, logo, logo eu tô por aí para a gente marcar e não ir para mais cervejas. Ahahahaha... Brincadeira, eu te adoro. bjos

Vivian, acho que é sua primeira vez aqui, né? Passei pelo seu tbm. Obrigada e bjinhos

Vivian Fiorio disse...

É sim, vi teu recado e quis conferir. Perfeito jogo de palavras ;)

miya disse...

muitas vezes,
um sentimento,
silêncio

Vitor Freire disse...

Eu ia chegar cauteloso e dizer que a dificuldade da palavra é o silêncio.

Até que observei os comentários. Distâncias. Leo reclamando da sua ausência e desejo de longitude.

Lembrei de um texto antigo. E a certa altura o personagem gritava, silenciosamente, "Viver é longe".

Márcia(clarinha) disse...

Uma vez eu disse o desejo da balbúrdia do silêncio, mas não um qualquer, quero o grito do silêncio de nós dois amantes,doído, sofrido, engasgado.
Beleza de palavras.
dias lindos,
beijos

Pedro Pan disse...

, silenciar. às vezes é tão sabio o silêncio que nem nos damos conta...
, agradecido pela visita em quimeras. volte quando desejar.
, abraços meus.

Lua disse...

Miya, sempre bom ler você por aqui, viu.
Victor, gostei da abordagem do longe... fiquei pensando bastante. Talvez o silência por vezes seja distância e por outras a falta dela. bjaooo
Márcia, muito obrigada pela visita e pelo comentário. bjão
Sim Pedro, passei pelo teu blog há um tempo. Interessante. bjos

Anônimo disse...

Sem querer retalhar seu texto, li a poesia primeiro... a palavra tem poder para tudo isso, concordo. veja o exemplo do vocábulo amor que lido é uma cognição silenciosa, pronunciado lhe "obriga" a dar um beijo. Primeiro: "a" (abre-se a boca)Segundo: "mô" o lábio se perfaz em uma éspecie de ósculo...
A palavra é algo engraçado. O silêncio igualmente. Lembro agora de Carlitos.

"Silêncio
Às vezes mascara
Fala mais baixo
Às vezes escala
Si-lên-ci-o"

Até mais e ainda estou me debruçando sobre a parte proseada que não deixa de ser a extensão do teu escrito...

O anônimo

Lua disse...

Eu nunca entendi esse texto.

Ele tá escondido em mim.

Nem sei porque gosto dele.

Mas gosto...

Gui disse...

O nome desse texto é Vontade.