
Não grita comigo. Não hoje, por favor. Não me olha de canto, de lado, de frente, nem mexe assim no queixo enquanto finge me escutar. Pelo menos hoje. Não deixa aquele mosquito entrar, Paixão, cobre o cachorro pra mim, apaga, por favor, apaga todas. Hoje, não. Pelo menos hoje Dona mãe, não me faz ver que tô errada, vai. Não me rasga devagar, com calma, me desvendando em desamparo. Amanhã, talvez, não hoje. Não tranca a porta da rua, abre as janelas e deixa ventilar. Segura aqui o meu cabelo, Neusa, porque hoje eu não posso ficar descabelada. Mas deixa o vento derrubar o que não for gente e bicho (nem cabelo). O que for coisa deixa. Só hoje. Não, hoje não quero ouvir a amiga de cachos, não quero saber se ela tá quase alcançando a alegria de um viciado em heroína. Apenas hoje, me deixa longe desse filme. Também longe do real. Hoje, eu quero todos os travesseiros da casa para mim. Quero dar um gole no copo e jogar o resto fora. Foi, Paixão, hoje eu tomei banho no escuro e gastei muita água em vão. Queria reconhecer pelo barulho e não pela vista. É que hoje meus olhos parecem cânceres. Me deixa hoje usar uma palavra de sonoridade estranha. Me deixa não combinar. Sim, Seu Raimundo, gritei na janela apenas uma vez e depois vi que hoje não quero gritar também. Achei que só não queria ouvir os gritos, mas não. Sim, não está me ouvindo porque decidi sussurrar, Seu Raimundo. Boa tarde, Seu Raimundo. Não, Paixão, não desfaz o círculo de cadeiras sem mesa que fiz na sala. Não desfaz meu hoje desfeito. Veja que tem shampoo no meu cabelo. É, sabonete também. Hoje eu quis saber como é ser ensaboada. Posso voltar amanhã a nunca escorregar, mas hoje... Deixa eu passar pano molhado no corpo pra tirar, deixa. Deixa eu abrir e fechar dez vezes a mesma porta porque cada vez a visão do dentro tá sendo diferente. Deixa, gente, deixa o telefone perder a porra da voz dele. Hoje, só hoje. Me deixem. Não. Não o deixar de sempre. Pelo menos hoje. Me deixem
, mas sem me deixar.
[Não, não me estranhe, me reconheça]
, mas sem me deixar.
[Não, não me estranhe, me reconheça]
(Imagem: Karl Schmidt-Rottluff. Porque pintura de flor em jarro lembra gente que não se pratica. Por mais que seja linda.)
7 comentários:
Texto lindo. Como te falei, nem consigo comentar. Mas tá tudo aqui dentro. Amo, amo, amo.
ai que eu tava com saudades daqui.
preciso passar mais vezes.
beijo grande.
=D
"Não desfaz meu hoje desfeito". Ave maria, coisa de louco. Gênio!
Eita que ela botou pra lascar! Gostttto é assim, até me arrepiou. Gritei por dentro. Bj
A repetição é parte da prática. Que pode levar à perfeição. Então, faz sentido.
Lôra, você é tão generosa comigo, Deuso meu. Amo-te sempre.
Luana, querida, que bom que voltou. E que sentiu saudade. Me importa isso, fiquei feliz.
Marcinha, adoro seus comentários. SEMPRE. Fico bem feliz que tenha gostado e dito. Você é uma ótima amiga.
Bom ver tbm o moço que não gosta de cavalos!
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