
É porque às vezes eu tenho fome de comida nenhuma, apenas a necessidade de vivenciar o insaciável. Aquela sensação de estômago vazio parece apontar para um buraco na alma e eu tento molhar a pele toda no sentido de encontrar o furo certo. Mas foram precisos poucos banhos para saber que acidentes internos não são certezas facilmente encontráveis. Fico eu por horas com a fome de nada e pensando no que está por vir, sim, com certo receio da carência interna que vai aparecer. Eu me chateio como criança órfã e meu sistema nervoso parece ter a mesma facilidade para hematomas que os hemofílicos. Meus inúmeros roxos não duram muito, mas são impetuosos na vontade deles de anunciar “nós existimos”. Roxo é a cor da seqüela, assim como câncer é a velhice da mágoa. Creio que esta última não me amedronta tanto, temo mais é aquele tom arroxeado que me faz pensar, onde eu cai? Onde eu bati? Onde? Quase nunca entendo como aquela frase específica, aquele olhar, o silêncio, a risada irônica, como manifestações aparentemente inofensivas podem ser pancadas fortes. Que nem sempre sinto na hora, mas vejo posteriormente o roxo. Ele nunca falha.
Eu viro angústia ao saber que nem sempre sei onde nasce e onde mora a minha dor. Concebo que por trás daquele roxo tem uma ação, por trás daquela ação uma interpretação, por trás da interpretação uma pretensão, por trás da pretensão uma lesão e ainda, por trás de tudo isso, uma vivência (porque nem tudo precisa terminar com ão). Saber todo o caminho não me leva lá. Engraçado, não? O mapa que construo serve para mostrar a estrada, do que ela é feita, como se dá, mas não, quase nunca, onde finda.
[Minha filha, passa Hirudoid que você tá com dois roxos na perna]
Imagem: Porque por trás da máscara de Dali havia dor.
5 comentários:
See here or here
Porque detrás de cada ponto arroxeado na pele há uma fome se escondendo. Lembra o disco novo da Nação Zumbi, isso...
passa tintura de arnica
é tiro e queda
:)
"o câncer é a velhice da mágoa"...não sei nem o que dizer. Deixa eu editar um livro seu?
Saudade sempre.
Bjo
Lôra
Ainda não ouvi esse disco da Nação. MAs acho a banda uma excelente mistura, Filipe. Que bom que estabelecemos um diálogo (tanto o texto e o disco como nossos blogs)
Vamos pintar com arnica a dor que não nos é sabida. Pode ser bacana, Lua. Xará de minha filha. bjão
Lôra,
Nem imagina o sorriso que abri ao te ler aqui. Penso tanto no dia que vamos conversar na areia e falar sobre as profundidades da vida. Se um dia eu fizer um livro, será uma horna tê-la como editora. Saudade tbm. bjão
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