
Aquela tosse da dúvida que não a deixava em paz e seguia engasgando as tantas decisões que diziam ser dela. Mas gostava de abandonar o verde no caminho de uma cor mais quente, tinha certo conforto mesmo aproximando-se da morte. Afinal, a morte pode estar sempre longe, basta não pensar nela. Ou basta se enganar com a frase anterior. “Por favor, mintam para mim de vez em quando”, era o que Luciana dizia inúmeras vezes para que ninguém ouvisse. E ninguém ouvia. Mas ali estava diante dela, ela mesma. Vez ou outra esse encontro a afrontava e Luciana já não se espantava tanto com as diferenças entre ela e ela. Eram pessoas distintas. Melhor mesmo era sentar na calçada e lamber um picolé rosa. Aquilo sim tinha sabor de vida mansa. E fazia isso mesmo nos momentos mais difíceis. “Tantos problemas na família e a Luciana lambuzada na calçada”, maldavam os vizinhos. Mas ela sentia-se mais forte com a ruindade alheia, pois legitimava sua posição contrária, tornava-a bondosa. “Falem mal de mim e multipliquem minha pureza”, calculava com ironia. O picolé derretia alheio às fofocas e era isso que importava.
Com a boca rosa, foi ao banheiro. Por vezes usava o todo em nome da parte. Banho também limpa boca suja, era o que pensava. Tinha segredos. Um deles era a mania de usar a toalha do marido, vez ou outra, sem avisar. Era tudo escondido. Aquela esfregação no sentido mais amplo que o de enxugar. Queria absorver, queria que a toalha secasse não tirando, mas empurrando para dentro. Luciana era conotativa e cheia de bordados. Era linda a renda de sua alma, como a da mais dedicada cearense. E pensava que os problemas eram como ela, que não tinha perfil. Sempre de frente ou de costas —, evitava ser vista de lado. “Não me veja metade, Luis”, pedia quando o marido arriscava. E o problema real da família os vizinhos nem sabiam. Mas ela sentava na calçada de novo e por lá ficava até quase não enxergar detalhes. Às vezes queria uma dose de cegueira. Mantinha as pernas abertas e cutucava qualquer coisa na rua com um galho recém falecido. Quase sempre passava aquele bêbado e lhe dizia a frase do dia. Era sempre a mesma, mas para ela era sempre diferente. “Cuidado moça, aí passam ratos”.
Imagem: "Nunca pinto quadros. Tento fazer pinturas". Antônio Bandeira
5 comentários:
Well done for this wonderful blog.
“Falem mal de mim e multipliquem minha pureza”, calculava com ironia.
Há muita genialidade ai dentro.
Amo
É porque as rendas da alma não pegam leptospirose do mijo invejoso dos outros.
Há de se tomar cuidado com os homens, não com os ratos...
dia lindo, flor
beijos
ô frase! A frase. Que bom que de tudo tu consegues fazer poesia, pois nos dias de hoje, só tenho sorrisos e prazeres dos/ pelos outros. Espero ter os meus.
“Cuidado moça, aí passam ratos”: só não sei por quanto tempo vai reverberar em meu pensanmento.....
Muito, muito, muito bom!!!!
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