segunda-feira, 9 de junho de 2008

A Figura da Linguagem




Aquela tosse da dúvida que não a deixava em paz e seguia engasgando as tantas decisões que diziam ser dela. Mas gostava de abandonar o verde no caminho de uma cor mais quente, tinha certo conforto mesmo aproximando-se da morte. Afinal, a morte pode estar sempre longe, basta não pensar nela. Ou basta se enganar com a frase anterior. “Por favor, mintam para mim de vez em quando”, era o que Luciana dizia inúmeras vezes para que ninguém ouvisse. E ninguém ouvia. Mas ali estava diante dela, ela mesma. Vez ou outra esse encontro a afrontava e Luciana já não se espantava tanto com as diferenças entre ela e ela. Eram pessoas distintas. Melhor mesmo era sentar na calçada e lamber um picolé rosa. Aquilo sim tinha sabor de vida mansa. E fazia isso mesmo nos momentos mais difíceis. “Tantos problemas na família e a Luciana lambuzada na calçada”, maldavam os vizinhos. Mas ela sentia-se mais forte com a ruindade alheia, pois legitimava sua posição contrária, tornava-a bondosa. “Falem mal de mim e multipliquem minha pureza”, calculava com ironia. O picolé derretia alheio às fofocas e era isso que importava.



Com a boca rosa, foi ao banheiro. Por vezes usava o todo em nome da parte. Banho também limpa boca suja, era o que pensava. Tinha segredos. Um deles era a mania de usar a toalha do marido, vez ou outra, sem avisar. Era tudo escondido. Aquela esfregação no sentido mais amplo que o de enxugar. Queria absorver, queria que a toalha secasse não tirando, mas empurrando para dentro. Luciana era conotativa e cheia de bordados. Era linda a renda de sua alma, como a da mais dedicada cearense. E pensava que os problemas eram como ela, que não tinha perfil. Sempre de frente ou de costas —, evitava ser vista de lado. “Não me veja metade, Luis”, pedia quando o marido arriscava. E o problema real da família os vizinhos nem sabiam. Mas ela sentava na calçada de novo e por lá ficava até quase não enxergar detalhes. Às vezes queria uma dose de cegueira. Mantinha as pernas abertas e cutucava qualquer coisa na rua com um galho recém falecido. Quase sempre passava aquele bêbado e lhe dizia a frase do dia. Era sempre a mesma, mas para ela era sempre diferente. “Cuidado moça, aí passam ratos”.

Imagem: "Nunca pinto quadros. Tento fazer pinturas". Antônio Bandeira

5 comentários:

lotto winners disse...

Well done for this wonderful blog.

Temporal disse...

“Falem mal de mim e multipliquem minha pureza”, calculava com ironia.

Há muita genialidade ai dentro.

Amo

Filipe disse...

É porque as rendas da alma não pegam leptospirose do mijo invejoso dos outros.

Márcia(clarinha) disse...

Há de se tomar cuidado com os homens, não com os ratos...
dia lindo, flor
beijos

Mariana disse...

ô frase! A frase. Que bom que de tudo tu consegues fazer poesia, pois nos dias de hoje, só tenho sorrisos e prazeres dos/ pelos outros. Espero ter os meus.

“Cuidado moça, aí passam ratos”: só não sei por quanto tempo vai reverberar em meu pensanmento.....
Muito, muito, muito bom!!!!