quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Manchete (?)


Em mim, 19 de agosto de 2008

(Preciso dormir)

Quero rasgar o jornal para não deixar que aconteça o contrário. Cada letra me parece tão uniformemente opaca, riscada em um papel sujo e financiada por interesses, sabe-se lá de quem. Embrulha aquele vidro quebrado com ele, querido, limpa a janela, não sei, mas deixa bem longe de mim. Explica para minha mãe que não posso me vestir de eu com roupagem tão alheia e pede desculpas para o papai porque não pude ser ele.



O que escrevo não forma o desenho que querem e fico sem rumo diante dos rabiscos que fazem em meus escritos, da cara de dúvida, do veto, daquele retorno às mesmices que estão diariamente ali. Ser periódico pode ser a cova de minha alma. Eu chorei no travesseiro, confesso, gritando abafado que não dependia tanto de mim o que escrevo. Ou que depende de um mim que não aceita ordens de nenhum outro. É um eu com vontade própria que escreve como forma de viver — não a vida assalariada, mas a que respira. Entenda. A minha pele não sente o mundo em laudas, o meu olhar não enxerga em frases de 70 caracteres, o meu choro, a minha dor e o meu andar não têm um lead pré-determinado. Os pés por vezes entortam.



Eu tentei Deus de todos, prestei atenção em como faziam, estudei, fiquei pensando, uni os meus suores em uma pauta e eis que não encaixa. Fica ali a incompreensão (eu), a frustração (o outro) e um texto alienígena entre elas.



Em minha identidade foi escrita uma grande mentira: jornalista. Não sou. Porque cada detalhe dessa profissão me machuca, me esmaga, me impede de ser. Fazer o que não gosta, muitos fazem, mesmo dentro do que sempre sonharam, mas fazer o que me reduz... Ah, até quando conseguirei? Uma jornada, uma noite de choro; uma empreitada, um juntar de pedaços; uma tentativa, duas punições. Dia após dia. É uma faca, estou certa, é uma faca de lâmina afiada que vem me cortando sem deixar vestígios. Dá transparência ao sangue, invisibilidade à cicatriz e ninguém entende porque choro tanto. Se pudessem ver como estou despedaçada.

(uma taça de vinho e me deixa chorar que o sono vem e me salva)

Com saudades de mim,
Eu


Imagem: Clarice Lispector por Giorgio De Chirico. Por que ela também não se sentia jornalista

8 comentários:

free lotto disse...
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Anônimo disse...

Lua,

Já sei de músicas, poemas, crônicas, uivos, gritos, silvos e contos para a lua... fica minha admiração para você que agora decidiu escrever e escrever-se em linhas belas. Dia desses houve um eclipse seu, depois você estava bem alva e cheia... hoje mais um escrito digno de ser lido várias vezes.

PS:não demore a postar.

Temporal disse...

Uma taça de vinho diariamente faz bem à saúde. Pelo menos é o que dizem os especialistas.
Pegue uma folha em branco e também faça suas pegadas sumirem a cada passo.
Uma taça de vinho e um brinde! Sempre que precisar...

Marcela disse...

Eu leio o papel a procura do erro, do deslize, do engano e só encontro diferença e encanto. No sei o que eles acham, mas acho isso e ponto.

Lua disse...

O tempo de postar tbm não depente exatamente de mim, parte que controlo... Mais próximo do que me acontece, do que percebo, do que sinto. Mais próximo de uma necessidade que não posso causar. Muito obrigada pela visita. Em uma próxima vez, quero saber o seu nome.
um beijo

Temporal, não quero que minhas pegadas sumam, ainda mais com a rapidez de "cada passo".
Te amo

Lolozinho,
Você é a mãozinha dada. Sempre.

Filipe disse...

Posso só dizer que eu sou apaixonado pela Clarice?

Sou apaixonado pela Clarice...

Mariana disse...

Como dizer de modo diferente que gosto muito de cada coisa que escreves?! Não sei. Ler teus textos é ver registrado a poesia que tu és em vida. A poesia está em cada canto na tua presença... "A faca corta, é verdade, mas, às vezes, a lâmina enferruja e, me pergunto, se pior não seria?"... Não des-liza.

Anônimo disse...

Acho que tu sofre demais com as escolhas que fez na vida...