
Devia ter mais ou menos seis anos quando a pergunta pôs-se a lhe inquietar. Queria porque queria saber a resposta. Encasquetou. “Por onde, afinal, entra o sangue das pessoas?”, pensava de olhos fechados fingindo já estar entregue ao sono. Depois refletia durante o dia enquanto atuava prestar atenção em conversas adultas. Fato era que nada mais lhe interessava ao tanto do dilema proposto pelos seus nãos. Mas ainda faltava vontade de expor sua angústia, pois sonhava em descobrir sozinha por qual parte do corpo lhe depositaram o líquido. Que era ele o regador de toda sua composição ela já sabia, cortara o dedo algumas vezes e já tinha até levado pontos no joelho. Foram 75 dias e uma descoberta: nem tudo se pode só, pelo menos não aos seis anos.
- Mãe, por onde entrou o nosso sangue?
- Como assim, minha filha, por que a pergunta?
Nara estava chorosa.
- Eu preciso saber, mamãe, por favor. Eu preciso muito.
Já não podia conter o choro que veio forte como há anos não vinha.
- Narinha, meu amor, o que está acontecendo?
-Todos dizem, mamãe, todos dizem que eu sou do contra. Eu tento pensar igual aos outros, mas quase nunca consigo. Tentei ontem, mamãe, eu juro aqui de pés juntinhos que tentei quando o tio João Marcos tava falando. Ele disse que flores são bonitas e ponto e eu tentei achar igual. Fiquei repetindo a frase dele, mamãe, mas sempre achava que aquilo era muito pouco para minha florzinha e então, eu não pensei igual, mãe e a acabei dizendo não.
- Minha filha, tudo bem.
A pequena balançava em soluços.
- Então eu pensei, minha mãe e talvez eu não seja do contra. Talvez tenham colocado meu sangue pelo lado errado e aí eu fiquei mesmo diferente.
9 comentários:
Talvez nem fosse o sangue, quem sabe o pensamento das pessoas adultas não se coloque ao contrário do sentido da descoberta?
Ola, felipe,
Eu gosto da idéia da Nara. Quer mostar o quanto é natural o seu diferente. O que pode ser pode também não ser, mas o que vale é a construção do discurso do falante, não? A forma como a pequena Nara se coloca e como ela coloca.
bjos
"Fato era que nada mais lhe interessava ao tanto do dilema proposto pelos seus nãos...Talvez tenham colocado meu sangue pelo lado errado e aí eu fiquei mesmo diferente". Em tudo a gente tenta dar um contorno, fazer borda, mas o sangue não tem o lado certo de caminho, já está posto.
Mais um escrito ótimo de ser lido e fagocitado...
Nossa, nem sei o que dizer. Amei muito esse texto!
Parabéns pela prosa. ótima. Acabas de ganhar um leitor cativo.
à Mariana que interpretou, ao anônimo que comeu,à Marcela que amou, ao Modestou que nos achou. Muito obrigada.
aguardando os próximos escritos.
oxê saudade, que delíca.
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