segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Sob água


Aquele batom que pretendia aumentar a boca e a roupa escura em pele morena fazia tudo parecer o mesmo tom besta. Ela viu quando a moça olhou na alma dele, mas achou que ia suportar.

Roberta gosta dele e essa é a clausura onde todos os outros argumentos morrem asfixiados. “Não se preocupe com isso, você é linda”. (Roberta gosta dele). E a tal disse aquilo e lhe feriu de uma forma. (Roberta gosta dele). O “Eu não tenho medo” fez daquele ar sem graça algo especial. (Roberta gosta dele). Destemida. A outra era entendiante, todos sabiam que era, nos mínios detalhes era aquela beleza medíocre da qual escapa a alma. (Roberta gosta dele). Até que a tal-moça-outra disse “Não tenho medo” e a Beta foi ficando pequena, pequena até nadar nela mesma totalmente dissolvida naquele ciúme aguado. (Roberta gosta dele).

E a boca que nem sabe receber batom direito tinha de saber falar sobre medo?

(Imagem: A Noiva do Vento, de Kokoschka)

(Toda a ficção, em imgem e texto, dedicas a uma realidade imensa e única a qual nenhum vento jamais poderá derrubar. Porque ela cai em dança.)

12 comentários:

Temporal disse...

Ah, como o medo nos faz crescer.
Hoje eu até ando de elevador.

Mariana disse...

O batom 'hidrata' os lábios, mas depois ressaca. A cor se desbota com o tempo.... Talvez fique só o resquício desta cor,deixando seu rastro.

Kilvia S disse...

Andei por aqui.. passos largos..depois passo com mais tempo pra ler e reler ..aquilo que você não escreve(por causa da necessidade de escrever ser maior que vc..tu que disse..rs).

Fica bem.

Anônimo disse...

Sabe... andei lendo seus primeiros escritos(deste blog). Confesso que gostei da maioria dos seus passos iniciais, misturaste samba, sabores e impressões cotidianas: coisa arriscada, teu riscado é bom, porém não tão bom quanto um tal sorvete de cajá.

Lua disse...

Kilvia, você foi rápida. Gostei de te ver por aqui. bjo

Anônimo, me fez reler antigas postagens tbm... Algumas não achei. Outras não tive coragem. Leu a do suicídio fotografado?
Um cajá na vida, muito importante, né? bjo

Anônimo disse...

Eu procurei bastante e não achei. Diz o título! Li pelos blogs da vida:

"Espumas brancas carregadas de sargaço são absorvidas pela areia fininha. Um tanrantantan começa a atrapalhar esta minha contemplação marítma, um rapazote debatendo seus braços tenta gritar por socorro em meio à golfos d'água. Não me movi.(...)Não fossem meus papéis, não fosse minha covardia desmedida salvava-o. Admirei o mar engolindo vivos e regurgitando mortos, ele é grande e só propiciou este espetáculo para ver-se escrito no papel..."

Lua disse...

Sr. Anônimo,
Lembrei-me de você hj. Veja porque: "De pé no banheiro era tão anônima quanto uma galinha. Numa fração de fugitivo segundo quase incosciente vislumbrou que todas as pessoas são anônimas. Porque ninguém é o outro e o outro não conhecia o outro. Então — então a pessoa é anônima".
Gostou? Está em "A procura de uma dignidade", da Sra. Lispector.Eu recomendo demais.

O texto chama-se "Quer um conhaque?" e não sei pq falei nele. Mas se quer ler algo que eu mesma NUNCA desvendei procure algo que atende por "A Mando". Se entender, me conte. rs.

Quanto ao seu trecho, não sei se é permitido a um anônimo impedir minha respiração por minutos aflitivos. É? Sufoquei com tais palavras.

Obrigada pelas visitas.
bjo

Anônimo disse...

Acho que sei por que tu falaste no escrito da Clarice... achei um ponto entre o teu texto do conhaque e o da dignidade: Roberto Carlos! Esses entremeios literários são cheios de coincidências, propositais ou não, gostosas de ler.

O Anônimo

Ps: "A mando" estou lendo, porém não virá nenhum comentário pretensioso que busca ser mais literário que o próprio escrito... como se faz comumente nos blogs.

Lua disse...

Querido anônimo,

Li o texto da Clarice apenas na sexta, data que escrevi a você, já o tal do conhaque foi bebido há mto tempo. No ano passado, acho, tem a data no blog. Não tinha reparado na semelhança robertiana pq não tinha colocado os textos lado a lado até o comentário. Vou lhe contar uma coisa: no início desse blog eu nunca tinha lido Clarice e comecei mesmo a ler tal senhora pq me disseram que eu tinha algo a ver com ela. Foi por isso. Creio que as semelhanças não eram propositais e talvez ainda não sejam. Mas hoje, ela, certamente, é uma influência. Há um ano praticamente só leio Clarice, em busca de um mestrado ou de algo muito maior. bjos, Lina

Lua disse...

Para as outras pessoas que pediram. bjo

http://debailarina.blogspot.com/2008/02/mando.html

Anônimo disse...

Lua,

A minha intenção desde que começamos este sadio "debate" foi o de vislumbrar abertamente(mesmo sob a égide do anonimato) o que escreves, pois lhe adianto que gosto e não pouparei impressões verdadeiras. Por mais que eu tenha falado em algo proposital, não vejo algo criminoso em ser parecida com a tal senhora... já defendi inclusive para inúmeras pessoas a semelhança do teu texto com a prosa da Clarice, algumas concordaram e outras não. Bom... para não alongar este chato comentário, vejo no final o encontro de duas boas escritoras, que em épocas e vidas diferentes escrevem com a mesma mão...

O Anônimo

PS: Já que tem lido tanto C. L. indico-te um livro que saiu com as publicações dela em jornal: "Correio Feminino" espero que tenhas lido...

Lua disse...

Chato para mim é televisão aos domingos. Comentários blogueanos são ótimos. Não se preocupe, é uma honra sua comparação e, sim, são muito saudáveis os diálogos. E então, "A Mando" desceu pela sua garganta?
Comente só se quiser...
bjo