
Meu querido,
Não gosto desses inícios piedosos, pois parecem entregar que por aí vem uma grande lamúria. Mas talvez seja isso mesmo e nem a minha imensa covardia possa mudar algumas coisas, como a força de uma culpa. Peço-lhe desculpas. Perdoe-me, por favor, pelos anos em que lhe encarreguei de meu aperto. Como fui injusta e egoísta, centrada ali em meus possíveis calos, sem perceber os que por debaixo de minha sola encontravam-se ainda mais esmagados do que as extremidades dos meus dedos sem espaço. Que couro, amigo, aperta uma alma angustiada? Hoje sei, não foi justo jogar aos meus pés a prisão de toda uma estrutura. E sempre acusei sua alma, independente do corpo encarnado — se ocupava um tênis, uma sandália, um sapato de salto —, sempre eras tu o grande vilão de minha dor.
Não gosto desses inícios piedosos, pois parecem entregar que por aí vem uma grande lamúria. Mas talvez seja isso mesmo e nem a minha imensa covardia possa mudar algumas coisas, como a força de uma culpa. Peço-lhe desculpas. Perdoe-me, por favor, pelos anos em que lhe encarreguei de meu aperto. Como fui injusta e egoísta, centrada ali em meus possíveis calos, sem perceber os que por debaixo de minha sola encontravam-se ainda mais esmagados do que as extremidades dos meus dedos sem espaço. Que couro, amigo, aperta uma alma angustiada? Hoje sei, não foi justo jogar aos meus pés a prisão de toda uma estrutura. E sempre acusei sua alma, independente do corpo encarnado — se ocupava um tênis, uma sandália, um sapato de salto —, sempre eras tu o grande vilão de minha dor.
Encarreguei você de meu sofrimento e amor e fui te calçando e chorando pelo decorrer dos anos. Não cessava o penar, mas também não andava descalço. Assim simbolizava toda a angustia de ter juntos, numa mesma pessoa, quem me ama e me machuca. Como são injustos os filhos e como são dolorosos os sapatos que apertam apenas querendo calçar.
Perdão.
(Imagem: Poderia ter "calçado" os Sapatos de Vincent Van Gogh — até porque o pós-impressionismo é de certa forma o início de onde quero chegar. Mas fui direto ao ponto, ao expressionismo que tanto gosto ( viva Kafka!), a angústia e a minha velha luta (nesse blog) de mostrar que o movimento não é só O Grito. Cinco Mulheres na Rua, de Ernst Kirchner.)
4 comentários:
Ainda não tirei os sapatos.
O aperto me faz bem. Sustentam meus pés.
P.S. Não vou elogiar para não correr o risco de ser menor do que de fato é.
Sei que meus pés são feios, mas me conformei com os anos que são eles que me sustentam - corpo hoje pesado. Bendito sapato que os escondem daqueles que teimam em conhecê-lo.
Sábias palavras.
Não esqueçamos de Jackson Pollock que sujava os sapatos de tinta para expressar-se... feito seu escrito pintado na forma de um bom mocassim.
E de sujeiras se faz uma boa alma. Obrigada pelas visitas.
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