segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Amém?



E no meio disso tudo aquela moça falando inglês com o filho na sala de espera da Dra. Liana pareceu-me uma cena patética. Ninguém lhe comunicara a morte do império americano? Vou perguntar se o rebento dela fala esperanto, pois não será essa a nova língua universal?! Não, não farei isso. Não me foi dado o direito de explodir a bolha de sabão alheia, repleta de brilho e dourado. [Quem você pensa que é?, indagou-me Deus]. Devo ter também a minha bolha. [Mas que era cafona aquele inglês de grife, isso era].

O vidro da sala de espera tinha neblina e pude perceber quão turva é a realidade lá fora. [Mas Deus, o filho dela ri em inglês]. Aliás, entre tantas realidades, qual é a realmente real? [hein, Deus, essa pergunta há de ser para você]. Fui banhada por um enjôo de gestante e sei que a culpa não é dos tais estrangeiros (?) do Brasil. Eu acordei assim, toda um estômago embrulhado.
Lembrei-me de como fui uma sem pátria na noite passada, estava lá, solitária de semelhantes [Deus não somos todos semelhantes?]. Por que, por vezes, me sinto tão estranha chegando ao ponto de ser uma turista em meu próprio corpo?

Faltei na análise e fiquei feliz por isso. Não tinha nada a dizer. Nada que fosse simples ao ponto de ser dito. [Freud também é seu filho, Deus? Seria ele meu semelhante?]. Não fui à análise e chorei. Por duas noites consecutivas chorei prantos que cabem no termo homérico, mesmo que não tenham molhado nem sequer os meus olhos. Encharcaram meus rins, pâncreas, bexiga... Só não conseguiram existir. [Foi castigo de Deus não poder chorar para fora?].

Pelos céus, não consigo amar a todos os próximos, mesmo sem desejar mal a nenhumzinho. [Deus é bom ou Deus castiga?]. Não sou semelhante a esse falatório em língua americana, sou? Eles são o meu próximo? [Pode deixar o próximo um pouco mais longe, Deus?]. Ah, desculpem-me esse jeito de andar com olhar em nada. Desculpem-me por pender mais para o lado esquerdo. Desculpem-me a coragem e o medo de dizer que isso é ridículo, que eu sou ridícula e que talvez você também seja ridículo. [Aquela praga que fez a cobra rastejar foi mesmo rogada por você, Deus?].
Post Scriptum: A imagem é de Dali.
Amém é consentimento.
A crítica e a angústia seriam infernais?

13 comentários:

Temporal disse...

A imposição da semelhança em universos na verdade tão distintos é a punição divina.
Viva o inferno e livrai-nos do mal.
Amém.

Mari disse...

Lua,

eu, na verdade, tenho faltado a análise. Minto: Abandonei-a. Eu chorei por fora várias vezes e quase um rio invisível criei. No último dia da tida cuja, porque é no último que é "tchan tchan" acontece, o escorregão na escadaria da Rua Antônio Augusto foi quase como um despertador matinal: acorda, "Menina". A queda é real. Abri os olhos, afinal, o óculos de um hipermetro é para ver melhor perto, de perto, por perto, mesmo ouvindo quem fala em inglês ou alemão. E quem disse que não posso fingir que entendo?


PS: Vi "Antes do temporal", mas não poderei ler agora.

Lua disse...

Chuvinha forte que molha minha alma, bom te ver!!!! Toda imposição é dura, né? E é difícil mesmo ser estranho. Ainda bem que temos "A terra dos meninos pelados" de Graciliano Ramos, ainda bem que li aos 9 anos, ainda bem que emprestei para você, ainda bem que nossos filhos lerão.
beijo com amor

Lua disse...

Mariana, sinta-se à vontade para entender e desentender como quiser. Está aqui no http, está aberto, está visível, está chamando... É seu também.
Cuide das quedas.
Cuide do levantar.
bjo com carinho.
Lina

Mari disse...

Eu e minha "mania" de engolir as letras e as palavras. Nem mastigo. Os óculos que não me ajudam....

Eu me jogo aqui de braços abertos. Aqui, me arrisco a cair... sempre.
Agradeço a acolhida.

Beijoca

Graça disse...

Lua
Gosto dos seus "escritos" como um todo e adoro, em particular, determinadas frases que exprimem sentimentos que eu também tenho, mas nunca soube dar a sua definição...tão apropriada! Afinal, talento tem você!
Sentir-me turista no próprio corpo...é sensacional!
bjo

Gui disse...

Delicia de texto. Me lembra bastante um dos melhores que já li (um dos melhores mesmo), A Confissão de Leontina.

meu banzo disse...

Nossa, mas que boa idéia essa minha de passar por aqui hoje.

Lindo, como sempre.

E que seja feita a NOSSA vontade.

Assim é.

Lina disse...

Graça, andou turistando em si? Traz angústia, mas creio que quando somos estrangeiras ganhamos um outro olhar. Que bom que gostou. Bjão da Lua

Lina disse...

Gui,
Você é tão intenso. Te amo, viu? beijos

Lina disse...

Mari, venha me visitar no nordeste qualquer dia. A gente se conheceu tão pouco, mas eu admiro tanto você. Bjos da Lua

Emanuel disse...

Eu não quis ler os comentários para não deixar fugir o pensamento, só o primeiro, não existe punição divina, a dificuldade de viver foi criada pelo homem e seu mundo moderno, Deus fez a vida simples e deu ao Homem o livre arbítrio, o Homem quis complicar pois achou que tão simples e fácil não teria graça, agora temos que nos encontrar nessa confusão e aprender a simplificar, para que sejamos felizes independente do nosso exterior, criar a paz e a tranquilidade em nossos espíritos, aí, independente da situação, você estará no paraíso, não no céu, pois, como é em inglês, paraíso e céu são diferentes, heaven e sky, nem sempre é tudo azul no paraíso, ou como sobreviveriam as flores sem chuva? As tempestades são necessárias, fora e dentro, me desculpe Santa Catarina, a culpa não é de Deus ou da natureza, se não houvesse tanto asfalto e concreto a água teria escorrido, se houvessem mais árvores não teria tanta erosão, a culpa é do homem. Seu maior inimigo é você mesma, quando aprender a amar seus inimigos não terá mais grandes problemas.

Lina disse...

Emanuel, gozou o texto ou apenas julgou?

De qualquer forma, se sua escolha foi responder as perguntas, é sua escolha, eu respeito. Volte sempre. bjim