
E no meio disso tudo aquela moça falando inglês com o filho na sala de espera da Dra. Liana pareceu-me uma cena patética. Ninguém lhe comunicara a morte do império americano? Vou perguntar se o rebento dela fala esperanto, pois não será essa a nova língua universal?! Não, não farei isso. Não me foi dado o direito de explodir a bolha de sabão alheia, repleta de brilho e dourado. [Quem você pensa que é?, indagou-me Deus]. Devo ter também a minha bolha. [Mas que era cafona aquele inglês de grife, isso era].
O vidro da sala de espera tinha neblina e pude perceber quão turva é a realidade lá fora. [Mas Deus, o filho dela ri em inglês]. Aliás, entre tantas realidades, qual é a realmente real? [hein, Deus, essa pergunta há de ser para você]. Fui banhada por um enjôo de gestante e sei que a culpa não é dos tais estrangeiros (?) do Brasil. Eu acordei assim, toda um estômago embrulhado.
Lembrei-me de como fui uma sem pátria na noite passada, estava lá, solitária de semelhantes [Deus não somos todos semelhantes?]. Por que, por vezes, me sinto tão estranha chegando ao ponto de ser uma turista em meu próprio corpo?
Faltei na análise e fiquei feliz por isso. Não tinha nada a dizer. Nada que fosse simples ao ponto de ser dito. [Freud também é seu filho, Deus? Seria ele meu semelhante?]. Não fui à análise e chorei. Por duas noites consecutivas chorei prantos que cabem no termo homérico, mesmo que não tenham molhado nem sequer os meus olhos. Encharcaram meus rins, pâncreas, bexiga... Só não conseguiram existir. [Foi castigo de Deus não poder chorar para fora?].
Pelos céus, não consigo amar a todos os próximos, mesmo sem desejar mal a nenhumzinho. [Deus é bom ou Deus castiga?]. Não sou semelhante a esse falatório em língua americana, sou? Eles são o meu próximo? [Pode deixar o próximo um pouco mais longe, Deus?]. Ah, desculpem-me esse jeito de andar com olhar em nada. Desculpem-me por pender mais para o lado esquerdo. Desculpem-me a coragem e o medo de dizer que isso é ridículo, que eu sou ridícula e que talvez você também seja ridículo. [Aquela praga que fez a cobra rastejar foi mesmo rogada por você, Deus?].
Post Scriptum: A imagem é de Dali.
Amém é consentimento.
A crítica e a angústia seriam infernais?
13 comentários:
A imposição da semelhança em universos na verdade tão distintos é a punição divina.
Viva o inferno e livrai-nos do mal.
Amém.
Lua,
eu, na verdade, tenho faltado a análise. Minto: Abandonei-a. Eu chorei por fora várias vezes e quase um rio invisível criei. No último dia da tida cuja, porque é no último que é "tchan tchan" acontece, o escorregão na escadaria da Rua Antônio Augusto foi quase como um despertador matinal: acorda, "Menina". A queda é real. Abri os olhos, afinal, o óculos de um hipermetro é para ver melhor perto, de perto, por perto, mesmo ouvindo quem fala em inglês ou alemão. E quem disse que não posso fingir que entendo?
PS: Vi "Antes do temporal", mas não poderei ler agora.
Chuvinha forte que molha minha alma, bom te ver!!!! Toda imposição é dura, né? E é difícil mesmo ser estranho. Ainda bem que temos "A terra dos meninos pelados" de Graciliano Ramos, ainda bem que li aos 9 anos, ainda bem que emprestei para você, ainda bem que nossos filhos lerão.
beijo com amor
Mariana, sinta-se à vontade para entender e desentender como quiser. Está aqui no http, está aberto, está visível, está chamando... É seu também.
Cuide das quedas.
Cuide do levantar.
bjo com carinho.
Lina
Eu e minha "mania" de engolir as letras e as palavras. Nem mastigo. Os óculos que não me ajudam....
Eu me jogo aqui de braços abertos. Aqui, me arrisco a cair... sempre.
Agradeço a acolhida.
Beijoca
Lua
Gosto dos seus "escritos" como um todo e adoro, em particular, determinadas frases que exprimem sentimentos que eu também tenho, mas nunca soube dar a sua definição...tão apropriada! Afinal, talento tem você!
Sentir-me turista no próprio corpo...é sensacional!
bjo
Delicia de texto. Me lembra bastante um dos melhores que já li (um dos melhores mesmo), A Confissão de Leontina.
Nossa, mas que boa idéia essa minha de passar por aqui hoje.
Lindo, como sempre.
E que seja feita a NOSSA vontade.
Assim é.
Graça, andou turistando em si? Traz angústia, mas creio que quando somos estrangeiras ganhamos um outro olhar. Que bom que gostou. Bjão da Lua
Gui,
Você é tão intenso. Te amo, viu? beijos
Mari, venha me visitar no nordeste qualquer dia. A gente se conheceu tão pouco, mas eu admiro tanto você. Bjos da Lua
Eu não quis ler os comentários para não deixar fugir o pensamento, só o primeiro, não existe punição divina, a dificuldade de viver foi criada pelo homem e seu mundo moderno, Deus fez a vida simples e deu ao Homem o livre arbítrio, o Homem quis complicar pois achou que tão simples e fácil não teria graça, agora temos que nos encontrar nessa confusão e aprender a simplificar, para que sejamos felizes independente do nosso exterior, criar a paz e a tranquilidade em nossos espíritos, aí, independente da situação, você estará no paraíso, não no céu, pois, como é em inglês, paraíso e céu são diferentes, heaven e sky, nem sempre é tudo azul no paraíso, ou como sobreviveriam as flores sem chuva? As tempestades são necessárias, fora e dentro, me desculpe Santa Catarina, a culpa não é de Deus ou da natureza, se não houvesse tanto asfalto e concreto a água teria escorrido, se houvessem mais árvores não teria tanta erosão, a culpa é do homem. Seu maior inimigo é você mesma, quando aprender a amar seus inimigos não terá mais grandes problemas.
Emanuel, gozou o texto ou apenas julgou?
De qualquer forma, se sua escolha foi responder as perguntas, é sua escolha, eu respeito. Volte sempre. bjim
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