quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Cacos de vidro


Foram dois buracos na toalha branca de renda que forra as refeições. Era brasa, mas ela não estava só. Era também raiva e seria fácil se fosse apenas isso. Era a angústia do último cigarro do terceiro maço da mesma noite que já durava três dias. Era o encontro árduo entre mim e a ilusão de um desejo que eu sempre pensei ser meu. Foi o rasgar do contrato que fiz entre o que quero de mim e o tanto que os outros esperam que eu faça. É a dor da ousadia que descobri tarde; os audaciosos também têm medo. E passa o atrevimento, hoje eu sei, resta o atrevido. Mas se fosse só isso, ainda assim, não seria tão grave. Cercando todos estes sintomas existia um muro forte, alto e cinza feito de uma única matéria-prima: a incompreensão.

Penso que posso enlouquecer a qualquer momento. Qualquer são pode, basta que a mesma cena se passe inúmeras vezes em um mesmo segundo. A cabeça fica cheia e a mandíbula pesa. Abrir a boca é mesmo uma tarefa de muitos músculos, nesse caso, debilitados. Queria chorar, vomitar, sangrar. Eu me testei e fui reprovada. Não estou tão em mim quanto antes. Não é fácil ter algumas de si. Eu me quero de volta.



Imagem: Munch expressa.

4 comentários:

mariana disse...

"É a dor da ousadia que descobri tarde; os audaciosos também têm medo"(...) "existia um muro forte, alto e cinza feito de uma única matéria-prima: a incompreensão".


Um pouco de mim também.
Adorei!

Temporal disse...

Impressionante quantos "eu" existe dentro da gente, né?
E quantos não somos também.
Apenas somos.

Marcela disse...

Esse é daqueles que dá falta de ar de tão verdadeiro. Ama!

Tais Oliveira disse...

Muito bom seus textos.Parabéns.
"Eu me quero de volta"...rsrsrs..ótimo...
Bjs