
Mas aquela porta escura estava descascada. Um buraco de transparência dava ao meu olhar um passar de pernas distintas. Ela estava fechada, porém aberta no pequeno descuido. Talvez tenha sido o tempo o causador daquele defeito ou um material vulgar e barato. Ou quem sabe ainda, a culpa seja de uma daquelas pessoas que guardam um vandalismo adolescente, ou de um desconstrutor. O que penso é ter um filme em duas nuances ali na porta fechada com pernas que passam escuras pela maior parte da porta e coloridas naquele pedaço transparente. Quem deseja ser porta deveria desejar também ter um pequeno erro. Uma porta certa, perfeita, encaixada cai no risco de se fechar em mofo. O defeito, veja bem, permite a variação. Quem quiser ser constante, que seja porta reta e conservada. Serei, por vezes, alimento de cupins.
Obra: Roda de bicicleta, 1913, de Marcel Duchamp, um grande provocador. A idéia também é arte.
6 comentários:
E a roda traz mais cupins ao banco.
Lindo texto.
toda vez entro aqui na esperança de um post novo
mas aí, ao me deparar com o que já estava, releio
e num é que eu num canso nunca de mais uma vez os q eu já vi?
lindo!
um beijo da Mari
Fico feliz com a presença de vcs dois aqui no blog. Tenho que me dedicar mais ao meu debailarina.
bjos
Estava com saudades de ler o que escreve. Quem sabe o buraco descuidado não vira a porta inteira? Mas talvez perca a graça.
Muita saudade.
legal, gostei do texto.
bjo
Qual o título desse texto?
Quando vem mais?
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