
Tarde para encontrar um amor daqueles. Cedo para chorar demais. Nem bichos, nem plantas, mas uma imprescindível planilha de contas para o dinheiro durar. Naquela terceira gaveta do criado-mudo emprestado, que ficava no único quarto da casa, um pedaço de nuvem morava na caixa de madeira. Mostrava o que não era impossível. Aquela bola de ar passeava entre seus dedos e era a sua chance de sobreviver. Escapava de acordar e dormir.
Acorda, café, jornal, bom dia, trabalho, almoço, boa tarde, trabalho, janta, boa noite, sono. E então o pedaço de nuvem dizia: “Veja Joana, aquele passarinho tem uma mancha branca nas costas e prefere andar a voar”.
Acorda, café, jornal, bom dia, trabalho, almoço, boa tarde, trabalho, janta, boa noite, sono. E então o pedaço de nuvem dizia: “Veja Joana, aquele passarinho tem uma mancha branca nas costas e prefere andar a voar”.
Imagem: Magritte, Deuso meu, que também gostava de nuvens.
2 comentários:
Uma poesia, o relato do cotidiano, que quase encerra com o andar de um inofensivo bichinho de penas, lindo, lindo,coisa de Lua.
Tarde para encontrar um amor daqueles. Cedo para chorar demais.
Isso já me diz muito. Saudades do teus escritos.
Beijos
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