
Foi assim que subi na cama, estiquei meu corpo e, com toda minha instabilidade nata, alcancei a pasta de recordações. Era o remédio que precisava. Toda vez que alguém se atrevia a dizer exatamente do que eu era feita, banhava meu rosto e corria para o quarto ao encontro de minhas lembranças. Cartas, bilhetes, fotos empoeiradas. Um cheiro, um recorte, um adesivo, um guardanapo qualquer com escritos excessivamente sentimentais. Precisava daquilo para respirar. Procurava o passado em busca do que de fato era, pois ali nas lembranças estava a prova das tantas vezes que já tinham tentando me fazer outra. Tem sempre alguém apontando um dedo e dizendo o que você é. Consigo ouvir o grito ecoando “eu te conheço minha filha, sou sua mãe”.
Pois sou um pouco do que dizem e muito também do que deixaram de dizer. Sou silêncio, sombra, o que sinto e não só o que sentem de mim. Por mim. “Não me reduzam a isso”, disse baixinho chorando enquanto abraçava os papéis velhos como se fossem um amigo. As interpretações eram tecidas a todo instante e isso não me machucava, doía mesmo era quando um das versões pretendia ser soberana. Parecia prisão. Embriagada em tristeza falei alto para o mundo não ouvir. "Ainda quero ser eu". Ao que de pronto um chefe me respondeu. “Então vá ser artista”.
[Com aqueles ouvidos de editor, ele selecionava o que entraria ou não no texto do pensamento dele. E assim, cortando as falas e mudando os contextos ia formando na mente a pessoa que eu seria. Quero te ver assim e, portanto, assim serás. O criador, não deixa de ser.]
Imagem: Adriana Varejão. Porque deixou azulejos em carne viva.
5 comentários:
nós somos o que mostramos, mas sobretudo, o que nós escondemos.
Muito bom, moça! És uma cronista nata.
Linda, você ainda está se descobrindo, redescobrindo e nestas palavras, suas, enxergo você agora.
Sarah
Obrigada a todos que por aqui passaram. É bom escrever e ser lida. bjos
Eu esperava por ti. E nenhuma espera por ti foi em vão.
'Procurava o passado em busca do que de fato era, pois ali nas lembranças estava a prova das tantas vezes que já tinham tentando me fazer outra.'
Chegou.
Saudades
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