quarta-feira, 14 de julho de 2010

Aos anjos


Dorme. Não quero chorar na sua frente. Vou fazer silêncio, prometo. Deixei a radiola cantar deformando a música com aquele chato problema de rotação. Quem não tem seus problemas. O cheiro do arroz queimado e a certeza de que às vezes é preciso estragar algo. Deixar apodrecer, desmanchar, deixar sujo. Não suporto a perfeição diante de um eu tão defeituoso.


Eram oito semanas. Eu sabia o que minha irmã estava passando e só nós duas sabíamos. Não é coisa que se explique. “É tão comum, passa.” O problema é até passar. “Mas isso não te impede de ser mãe”. O problema é até ser. Perder filho não é algo que se explique. A gente diz, a pessoa escuta. Nada mais pode acontecer.


O cigarro descia enjoado e por vezes ensaiei vomitar. Não tinha vento para levar minha dor, nem para um passeio rápido. Fiquei ali olhando a vida naquela janela. Eu, meu sofrimento e o sofrimento da Janaina. Vi na casa em frente uma família tentando jantar, os mais jovens seguravam um senhor que já não tinha muito equilíbrio nos movimentos. Era uma imagem fragmentada pela grade posta na janela. Pude ver as partes.


Pensei em ligar para ela e dizer que decidi ter dois filhos. Estava encasquetando com a ideia de ter apenas um por questões minhas de nunca acumular riqueza. Não teremos como sustentar dois. Mas chorando naquela janela, eu decidi. Não posso nunca privar meu filho de ter um irmão. Eu seria tão pouco sem Janaina.


Rezei para que a morte não fosse o fim. Eu, que nem rezar sei. Pedi para a vó, com quem não pude ter, que cuidasse deles e desejei com força que eu pudesse cuidar de minha irmã.


Sentir a dor do outro é entrega de amor.


Enxuga as lágrimas que o marido já está acordando e ele não precisa sofrer.

[Vou ligar para a Jana fingindo não saber que ela sofre. Talvez a gente mande a conversa andar por bobagens e faça um carinho na dor.]
Imagem: Edvard Munch e toda minha dor e amor ao expressionismo alemão.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Eu lírica


Foi assim que subi na cama, estiquei meu corpo e, com toda minha instabilidade nata, alcancei a pasta de recordações. Era o remédio que precisava. Toda vez que alguém se atrevia a dizer exatamente do que eu era feita, banhava meu rosto e corria para o quarto ao encontro de minhas lembranças. Cartas, bilhetes, fotos empoeiradas. Um cheiro, um recorte, um adesivo, um guardanapo qualquer com escritos excessivamente sentimentais. Precisava daquilo para respirar. Procurava o passado em busca do que de fato era, pois ali nas lembranças estava a prova das tantas vezes que já tinham tentando me fazer outra. Tem sempre alguém apontando um dedo e dizendo o que você é. Consigo ouvir o grito ecoando “eu te conheço minha filha, sou sua mãe”.
Pois sou um pouco do que dizem e muito também do que deixaram de dizer. Sou silêncio, sombra, o que sinto e não só o que sentem de mim. Por mim. “Não me reduzam a isso”, disse baixinho chorando enquanto abraçava os papéis velhos como se fossem um amigo. As interpretações eram tecidas a todo instante e isso não me machucava, doía mesmo era quando um das versões pretendia ser soberana. Parecia prisão. Embriagada em tristeza falei alto para o mundo não ouvir. "Ainda quero ser eu". Ao que de pronto um chefe me respondeu. “Então vá ser artista”.


[Com aqueles ouvidos de editor, ele selecionava o que entraria ou não no texto do pensamento dele. E assim, cortando as falas e mudando os contextos ia formando na mente a pessoa que eu seria. Quero te ver assim e, portanto, assim serás. O criador, não deixa de ser.]
Imagem: Adriana Varejão. Porque deixou azulejos em carne viva.