
Dorme. Não quero chorar na sua frente. Vou fazer silêncio, prometo. Deixei a radiola cantar deformando a música com aquele chato problema de rotação. Quem não tem seus problemas. O cheiro do arroz queimado e a certeza de que às vezes é preciso estragar algo. Deixar apodrecer, desmanchar, deixar sujo. Não suporto a perfeição diante de um eu tão defeituoso.
Eram oito semanas. Eu sabia o que minha irmã estava passando e só nós duas sabíamos. Não é coisa que se explique. “É tão comum, passa.” O problema é até passar. “Mas isso não te impede de ser mãe”. O problema é até ser. Perder filho não é algo que se explique. A gente diz, a pessoa escuta. Nada mais pode acontecer.
O cigarro descia enjoado e por vezes ensaiei vomitar. Não tinha vento para levar minha dor, nem para um passeio rápido. Fiquei ali olhando a vida naquela janela. Eu, meu sofrimento e o sofrimento da Janaina. Vi na casa em frente uma família tentando jantar, os mais jovens seguravam um senhor que já não tinha muito equilíbrio nos movimentos. Era uma imagem fragmentada pela grade posta na janela. Pude ver as partes.
Pensei em ligar para ela e dizer que decidi ter dois filhos. Estava encasquetando com a ideia de ter apenas um por questões minhas de nunca acumular riqueza. Não teremos como sustentar dois. Mas chorando naquela janela, eu decidi. Não posso nunca privar meu filho de ter um irmão. Eu seria tão pouco sem Janaina.
Rezei para que a morte não fosse o fim. Eu, que nem rezar sei. Pedi para a vó, com quem não pude ter, que cuidasse deles e desejei com força que eu pudesse cuidar de minha irmã.
Sentir a dor do outro é entrega de amor.
Enxuga as lágrimas que o marido já está acordando e ele não precisa sofrer.
[Vou ligar para a Jana fingindo não saber que ela sofre. Talvez a gente mande a conversa andar por bobagens e faça um carinho na dor.]
Imagem: Edvard Munch e toda minha dor e amor ao expressionismo alemão.
